«Quando for grande»

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Fotografia © Andreia de Castro | Design © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Andreia de Castro | Design © Laura Almeida Azevedo

«Quero ser… quando for grande. Se, um dia, for grande!» E agora que já sou grande?

Eu, em tempos, acreditei que a vida se encarregava de nos trazer aquilo que nos está destinado. Soube sempre que nada é certo, tão-pouco garantido. Soube sempre que as oportunidades podem surgir, mesmo quando já não contamos com isso.

Pouco importa se merecemos ou não. Pouco importa a questão: «Porquê?» Pouco importa se não nos sentimos preparados para a dificuldade. Qualquer batalha tem de merecer luta. Pouco importa se a ganhamos ou perdemos. Aquilo que enfrentamos serve para enriquecer.

Esta é a história de alguém que não gosta de ler, nem dizer a palavra desempregada. Muito menos da reação de quem a ouve.

Acredito que não há ninguém que se tenha imaginado nessa situação. Afinal, o significado real é duro de aceitar, depois de anos de estudo ou simples dedicação àquilo que fomos fazendo pelo caminho.

Creio ser insuportável e inevitável as sensações que a palavra acarreta: inútil; incapaz; rejeitado pelo mundo do trabalho, que nos sentimos perfeitamente aptos para exercer; desvalorizados por ter muitos estudos ou, em alguns casos, poucos; impotentes quanto ao sucesso ou insucesso de uma entrevista (mais uma); sem rumo ou esperança, depois de tanto tempo em tentativas; no entanto, confiantes de que um dia um alguém nos vai ver e aproveitar.

A nossa história começa com sonhos, com frases como: «Quando for grande, quero ser…» E a meio do caminho acabamos por sentir necessidade de definir áreas e conceitos que podem até já não corresponder àquilo que foi escolhido na altura da dita frase.

Há tanta coisa que eu queria e gostava de ser! Mas o conceito já não é o mesmo. Agora, existe a diferença entre o que quero fazer e aquilo que nos é permitido fazer — ou, simplesmente, aquilo que há para fazer.

Ainda assim, é a minha história que me define como pessoa.

Dar luta à luta que nos espera é realmente o maior desafio. E assumir como uma fase, que terá de passar um dia, é o segredo.

Eu não consigo sentir-me satisfeita com o que há. Eu não quero, nem me posso permitir aceitar aquilo que não sonhei para mim. Eu estou, sim, atualmente desempregada. No entanto, também estou a alimentar o saber, a aprender a viver, a enriquecer o ser e sem desistir de ter ou sonhar nos momentos de silêncio.

Pelo caminho, há sempre algo bom. Pelo percurso, há sempre sorrisos e gargalhadas, aqueles bons momentos. Pela viagem, há sempre aventuras e pessoas que nos trazem algo. Pelo trajeto, há o tempo, os espaços livres e vazios, que parte de cada um ocupar — ou simplesmente aproveitar a pausa.

Por aquilo que fomos, por aquilo que nos tornamos, pelo simples facto de existirmos, merecemos acreditar que vai mudar. E vai!

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ANDREIA DE CASTRO, a princesa
Se fosse o seu pai, dir-nos-ia: «A Andreia é uma princesa... Só ainda não sabe que o é.» E, para ele, isto definiria tudo. Porque a Andreia é amor. Amor pelos outros, mas não tanto por ela própria. Porque a Andreia é família: vive para e por eles. Porque a Andreia é o sorriso, a lágrima, o vento, o sol, o silêncio, o mar e o céu sem limite. E, além de tudo disto, a Andreia é ainda solitária, viajada, artista, insegura, auto crítica, beijoqueira. É a princesa que o pai sempre quis ter. E que, até ao parto, esperavam que fosse um menino... Mas a Andreia, porque também é sentido de humor, enganou tudo e todos. E não se limitou a nascer menina. Nasceu princesa.