Em nome da Coragem

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Fotografia © Michal Kulesza | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Michal Kulesza | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

O meu nome não é João.
Deixou de ser no momento em que nasci e gritei.
Ninguém viu, ninguém reparou.
E o mundo insistiu em contrariar o que sou.
Em tempos julguei fácil enganar a vontade.
É tão mais cómodo ser o que é visto.
É tão compensador corresponder às expetativas.
Ser “normal” pelas regras do livro.

Se desejasse com muita força, talvez deixasse de ser uma aberração.

Se desejasse com muita força, talvez pudesse voltar ao ponto em que alguém decidiu trancar-me numa pessoa que não sinto.

Enganei-me ao pensar que seria engano.
Que Deus me iria devolver e consertar.
Mas o dia da troca nunca chegou.
E eu fui vivendo como um objeto emprestado – com cuidado para não me magoar, convencendo-me que seria temporário.

E agora a esperança de um dia poder ser livre.
Deixar de condenar a pessoa que amo à minha vergonha eterna.
Enfrentar os olhares que me reprovaram.
Dizer-lhes que os vou continuar a incomodar.

Olhem para mim.
Não sou nada do que veem.
Sou uma mulher em construção no corpo de um homem.
Vou nascer e vou viver.
Vou ser feliz e vou morrer.

Olhem para mim.
Só para que saibam: o meu nome não é João.
O meu nome é Coragem.

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CAROLINA PAIVA, a alma inquieta
Tenho estórias em mim. Se as vivi? Todas tenho que escrever. Não me pertencem, mas sinto-as minhas. Como quem as viveu. Como quem as sofreu. Como quem as sorriu. Ao desenhar as letras, fogem-me. São agora do mundo, do fundo dos corações maiores. Alguéns mais tristes e mais felizes que eu.