
O meu nome não é João.
Deixou de ser no momento em que nasci e gritei.
Ninguém viu, ninguém reparou.
E o mundo insistiu em contrariar o que sou.
Em tempos julguei fácil enganar a vontade.
É tão mais cómodo ser o que é visto.
É tão compensador corresponder às expetativas.
Ser “normal” pelas regras do livro.
Se desejasse com muita força, talvez deixasse de ser uma aberração.
Se desejasse com muita força, talvez pudesse voltar ao ponto em que alguém decidiu trancar-me numa pessoa que não sinto.
Enganei-me ao pensar que seria engano.
Que Deus me iria devolver e consertar.
Mas o dia da troca nunca chegou.
E eu fui vivendo como um objeto emprestado – com cuidado para não me magoar, convencendo-me que seria temporário.
E agora a esperança de um dia poder ser livre.
Deixar de condenar a pessoa que amo à minha vergonha eterna.
Enfrentar os olhares que me reprovaram.
Dizer-lhes que os vou continuar a incomodar.
Olhem para mim.
Não sou nada do que veem.
Sou uma mulher em construção no corpo de um homem.
Vou nascer e vou viver.
Vou ser feliz e vou morrer.
Olhem para mim.
Só para que saibam: o meu nome não é João.
O meu nome é Coragem.




