Hoje, apetecia-me tanto amar

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Fotografia © Kira Ikonnikova | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Kira Ikonnikova | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Hoje, apetecia-me tanto amar. Amar. Só amar. Expurgar de mim isto que guardo dentro da pele. Não sei bem ainda para quem. Mas guardo. Apetecia-me amar. Só amar. Tirar do peito esta ansiedade que não sai e que, ferozmente, se transforma em saudade. Arrancar este desejo que se colou a mim e que me faz estremecer de tanto querer. Hoje, apetecia-me amar. Sem rostos. Sem nomes. Sem credos. Sem nexo. Só amar. Hoje, queria tirar do corpo este desvario, este devaneio, este mar revolto em que vagueio. Hoje, apetecia-me ser louca num corpo que me despisse a razão, que me fizesse gritar e gritar bem alto de loucura, de paixão. Hoje, queria arder em desejo. Desejo insano, louco, profano. Hoje, queria marcar-te a pele. Possuir-te a alma. Agarrar-te o peito. Não ter calma.

Hoje, apetecia-me amar. Amar. Só amar. Sem explicação. Sem porque sim, nem porque não. Amar. Só amar. Sinto-me presa. Sinto-me enganada. Sinto-me filha desta sanidade que me deixa acorrentada. Hoje, não quero ser sã. Quero que permaneça em mim esta loucura sem fim. Não quero fazer sentido e ficar-me por um beijo. Quero procurar-te a pele, entrar em ti, sufocar-me de desejo. Hoje, não quero o que é certo ou o que é errado. O que é certo não me faz feliz e ser feliz ficou no passado. Já não aguento muito mais esta espera. Não sei bem por quem. Talvez por ninguém. Se virá, se amará, se vem por mal, se vem por bem. Hoje, apetecia-me amar. Amar. Só Amar. Que não me cabe mais no corpo este alguém que não tem rosto. Não tenho mais lágrimas para chorar, nem para viver nenhum desgosto. Estou farta de esconder da alma e fingir que não me sinto, se o que mais habita em mim é tudo aquilo que minto. Sim, hoje apetecia-me amar. Apetecia-me tanto amar. Tanto amar e amar tanto que me devolvesse, de novo, o encanto. Que me atirasse para o chão, com força, com poder, com tesão. Que me desconcertasse a vontade. Que me apagasse a saudade.

Porque, se eu não puder arrancar esta ansiedade que tenho no peito, se eu não for feita do que tu és feito, se este meu beijo não tiver a medida do teu desejo, se esta minha saudade não for para acalmar a tua vontade, se não te puder ver,

tocar,
sentir,
abraçar;

se não puder despir
as roupas,
a alma,
a vontade,
o desejo,
o beijo,
a saudade;

se não puder encontrar-me
na tua pele
e, por lá, demorar-me;

então, chama-me louca, deixa-me cair, devolve-me a roupa. Que eu hoje apetecia-me amar. Amar. Só amar. Amar sem rostos, sem nomes, sem credos, sem nexo. Amar-te a ti, a ti ou a ti. Amar sem condição. Começar na minha cama e terminar no teu chão. E, se eu hoje não puder só amar, ir e ficar, então levem-me para longe, porque eu não quero cá voltar. E, se eu não puder ser feita de sentir, também não serei feita de fingir. Levem-me. Amarrem-me a alma com correntes, tirem-me daqui e não me devolvam a este lugar. Porque só estou aqui… porque hoje apetecia-me tanto amar.

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JÚLIA DOMINGUES, a JUX
Tem 38 anos. É solteira e igual a si mesma. Licenciou-se em Direito, sendo Jurista, mas a mais sábia aprendizagem foi aquela que a camaradagem desses tempos trouxe — e que dura, na maioria, até hoje. Tem um refúgio que gosta de pensar que é secreto: Braga, Gerês, a terra dos seus pais. Desde os 25 anos que diz: «Qualquer dia, piro-me de vez para o Norte. Quando for grande.» Mas nunca se pira, apesar de já ser grande. Adora tudo o que seja trabalhos manuais e o desenho é, sim, a sua verdadeira paixão. Tem fobia a andar de avião. E acredita no amor, embora não em coisas especiais. Afinal, não é preciso que ele venha de cavalo branco.