Tu ficavas-me bem

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Ilustração/Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Ilustração/Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Tu foste, durante umas horas, o meu vestido preferido. Eu adorei aqueles minutos em que fiquei vestida apenas pelas tuas mãos. Ficar ali, assim, despida era mais do que um sonho. Era viajar nos teus braços, com a leveza e encanto de uma borboleta.

Eu, que de tantos complexos sofria, de repente, não me sentia feia, nem gorda. As tuas mãos eram a minha medida. Vestida daquela maneira tudo me servia. Não precisava de me preocupar com a cor do vestido, nem sequer com o número. Não existia a preocupação de que ele poderia não me servir.

Tu ficavas-me bem. Não precisava de escolher. Por intuição, sabia que estava linda. Tu eras o meu vestido perfeito. Nunca, até então, me sentira tão bem numa peça de roupa. O vestido deslizava sobre mim, ficava colado às minhas curvas. Realçava todo o meu atrevimento. Mostrava a pureza do meu corpo.

Eu olhava-te e sabia que tu me desejavas. Adoravas ver-me assim vestida. Totalmente nua, coberta apenas pela tua paixão. Fiquei ali, deslumbrada, a escutar a melodia do desejo, enquanto os teus lábios escreviam tentação em mim.

Assim, vestida com o teu amor, nem precisa de me olhar ao espelho. Tu eras o meu melhor espelho. Não precisava de fazer retoques. Eras a roupa mais sensual, que alguma vez tinha usado.

O teu amor espalhava tentação pelas minhas curvas. Fazia-me sonhar. Parecias o espelho da pureza que vestia o atrevimento que, tantas vezes, eu escondia. Julguei sentir a nossa cumplicidade, a aquecer-nos naquela noite fria, em que nos esquecemos do frio, por sentirmos o calor do sentimento que nos atraia.

Foram horas em que me senti uma verdadeira princesa. Senti-me a tua rainha. Dividi contigo o trono do amor. Escutei promessas que fizeram eco na minha alma sofrida. A melodia do desejo foi o alimento de que o meu coração faminto precisa para não desfalecer. Pensei que era mulher mais feliz do mundo. E fui, de facto, feliz. Sim, porque a felicidade é filha dos momentos mágicos que ficam impressos na nossa história e que ninguém nos roubará.

E foi assim que eu adormeci nos braços do maior dos meus sonhos. O sonho de passar a ser tua. A ilusão de que serias o meu príncipe encantado. O grande problema foi ao despertar, quando olhei para o lado e o lugar na cama estava vazio.

O meu vestido tinha, como que por milagre, desaparecido. Acordei e, de facto, estava nua. Só que, desta vez, estava despida de sentimentos. As tuas mãos não estavam ali. Tinham deixado, no seu lugar, o rasto da tristeza que me iria consumir para o resto da vida.
Tu tinhas-me amado por breves instantes. Tinhas vivido o teu capricho e partiste, deixando-me ali sozinha e sem explicações. Entregue às mãos do sofrimento que não sabia vestir-me.

Passaste de vestido perfeito a capa rasgada de um coração pedinte. O corpo que, sem alento, passou a arrastar-se pela vida, mendigando a amor a todos os que o olhavam. O meu coração triste não mais deixou de verter lágrimas de uma tempestade, que não esquece a noite em que me senti rainha de um reino que nunca me pertenceu.

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ANGELA CABOZ, a miúda gira
Nasceu em Tavira há 49 anos. Desde a adolescência que é uma apaixonada pela leitura, pela escrita, pelo cinema e pela música. Escreve sobre sentimentos e, nas palavras, reflete a maneira de ver e de sentir o mundo. Em 2014, realizou um sonho: a publicação do seu livro «À procura de um sonho». Desde então, tem participado em várias obras coletivas.