O mundo aos seus pés

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Fotografia © Cesar Quintero | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Cesar Quintero | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Todos os dias, há mais de um ano, Catarina subia as escadas daquele prédio. Queria e precisava de sentir o mundo debaixo dos seus pés descalços, com o vento a suavizar as suas pernas frágeis. Ali, a sós com ela própria, sentia medo. Sim, medo dos seus pensamentos, do que eles poderiam provocar naquele coração frágil e dorido.

Ficava sempre de pé, bem junto ao precipício, entre a vida e a morte. Lá, em baixo, via as luzes dos carros a grande velocidade, via as luzes nas janelas das casas, onde certamente havia vidas difíceis. Sabia que, certamente, não seria a única que estaria no cimo de um prédio com a sensação do mundo aos pés. Caso fosse, então estaria a ficar louca — seria um ser estranho perante os olhos do mundo que a rodeava.

Ali, Catarina sentia-se livre para pensar na vida, mas a sensação de medo percorria-lhe o corpo. O medo dos pensamentos que a descontrolavam. O medo de que o mundo, para ela, acabasse num instante. Um arrepio percorria-lhe o corpo, deixando-a sem reação, sem respiração. Sentia-se desprotegida. Não havia ali uma mão que a pudesse salvar do imprevisto. Não tinha junto a si uma voz que lhe desse coragem para continuar a viver.

Aquela sensação do medo, do pânico, por ali se encontrar, naquele precipício entre a vida e a morte, fazia-a sentir-se insegura. Deixava-se ao acaso do destino. Ali, no cimo do prédio, havia silêncio absoluto, mas ao mesmo tempo ela tinha noção da agitação que existia debaixo dos seus pés.

Catarina estava descalça, com os pés assentes naquele muro, onde o desequilibro tomava conta do seu corpo, onde era baloiçado à espera que o destino decidisse. A vida ou a morte! Ali, com o mundo a seus pés, com vidas a deambular sem destino, sabia que nada lhe restava. Deixava-se ao acaso do destino. Tinha o coração frágil e dorido.

Todos os dias, há mais de um ano que Catarina subia as escadas daquele prédio. No fim daquele tempo, em que se perdia em pensamentos, inseguranças e temor pelo imprevisto, o destino tinha sido o mesmo até hoje! Depois, descia as escadas daquele prédio, de cabeça baixa, desiludida com a incapacidade que sentia de não ter solução para a sua sobrevivência.

Continuava de coração frágil e dorido. Não sabia quantos mais dias iria ainda subir aquelas escadas, mas sabia que um dia seria o último. Já nada lhe restava! Catarina ficou entregue ao destino.

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MATILDE GOMES, a emotiva
É sonhadora — tanto que, desde há muito, tem uma lista de sonhos a realizar — e é a viajar que quer iniciar a sua aventura pela vida. Apaixonada pela leitura, é na escrita onde se sente livre, tendo sempre presente o amor e a dor. O seu interior é um turbilhão de emoções, onde reside as lágrimas e os sorrisos. Para a Matilde, o abraço é o gesto que melhor revela os sentimentos.