Chora, minha princesa

Texto vencedor | Desafio de escrita: «Acreditar»

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Fotografia © Freestocks.Org | Cartaz @ Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Freestocks.Org | Cartaz @ Laura Almeida Azevedo

Tinha finalmente chegado a casa. Ainda sentia o corpo gelado pelo frio típico daquela tarde de dezembro. Tinha o rosto vermelho por causa daquele frio capaz de rasgar a pele. Os olhos também vermelhos, mas pelas lágrimas que chorou. O último adeus. O último adeus a quem lhe deu a vida, a quem lhe deu tudo.

Ela sabia que esse dia ia chegar e ele também o sabia. Foi por isso que, todos os dias, no final de jantar, a chamava ao seu escritório para falarem da vida. Ele queria que ela fosse a perpetuação dele e ela amava aquelas conversas e queria dar continuidade ao coração que tanto lhe ensinou.

Ainda sentia o gelo a quebrar-lhe os ossos, mas, assim que chegou a casa, foi imediatamente para o escritório dele. Precisava de o sentir perto. Precisava de o cheirar. Precisa de recordar todas aquelas conversas. Sentou-se na cadeira dele, fechou os olhos e ficou ali horas. Ali, conseguia senti-lo. Ali, conseguia sentir a mão dele no ombro dela, como sempre lhe fazia quando lhe dizia: «Chora. Não guardes as lágrimas no coração. Às vezes, é preciso chorar por fora para que o interior fique livre para as alegrias.» Ela nunca se vai esquecer destas palavras e da voz forte, mas meiga, com que o pai as proferia. Abriu os olhos. Já tinha o coração preenchido com a energia que pairava naquele escritório, mas ao levantar-se o seu olhar prendeu-se a um envelope pousado na secretária, onde se podia ler: «Para ti, minha princesa». Era para ela. Era ela a única princesa da vida dele.

«Minha princesa,

Se lês esta carta é porque já não estou contigo, mas é assim, é a lei da vida. É exatamente por isso que é importante que aproveites cada segundo da tua vida. Eu sei que todas as conversas que tivemos, neste escritório, estão guardadas na gavetinhas que tens no teu coração. Mas peço-te que tenhas mais quatro espacinhos para os últimos quatro ensinamentos que te quero deixar. E eu sei que tens espaço, porque o teu coração é infinito. Peço-te, por isso, que olhes a estante do lado direito da porta da entrada. Reconheces aqueles quatro livros centrais? Sim, são aqueles livros que escrevi nos últimos anos e que nunca te permiti que lesses. Queria que o fizesses num momento especial. E o momento chegou. Porque, agora, já aqui não estou para te falar, para te aconselhar, para te oferecer as minhas palavras, mas sei que vais precisar tanto delas, filha. Quando terminares de ler esta carta, podes ver cada um deles e, quando precisares de um conselho, já sabes onde me podes encontrar. Ou achavas que nunca mais irias ouvir o que tenho para te dizer?

Do pai, o teu rei»

Assim que lê a carta, corre para a estante. Agarra nos quatro livros e lê-lhes os títulos:

«Não ter medo»

«Acreditar»

«Seguir em frente»

«Ser feliz»

Sentiu as lágrimas a deslizarem pelo rosto ainda rosado. E, de repente, sente que alguém lhe toca no ombro e lhe diz, em silêncio: «Chora. Não guardes as lágrimas no coração. Às vezes, é preciso chorar por fora para que o interior fique livre para as alegrias.»

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RAQUEL FERREIRA, a engenheira
É de uma aldeia perdida no norte do país e ambiciona ser mestre em Engenharia Civil. No percurso, apaixonou-se pelas palavras e escreve. Sobre tudo. Sobre nada. Ainda não é tudo o que quer ser, mas luta todos os dias por isso.