Margarida. Chamo-me Margarida

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Fotografia © Ben White | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Ben White | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Eram quase oito da manhã. Deambulava pela avenida, no meio da multidão constante de todas as manhãs em Lisboa. A correria desenfreada, os óculos de sol para esconder as olheiras, a maçã a imitar o pequeno almoço e o café na padaria do costume. Era assim todos os dias. Era assim há cinco anos. Uma vida dedicada ao trabalho, sem espaço para o que realmente devia importar: a sua felicidade.

Tudo começou no dia em que deixou de acreditar no amor, no dia em que ela soube que ele a traía. Lembra-se de se ter sentido um trapo velho, um ser completamente perdido num mundo de pessoas facilmente substituídas. Eles eram «o casal». O casal admirado por todos. Os amigos queriam um amor assim, a família idolatrava-os e eles deixaram-se cegar por todas as expetativas que depositavam neles. Ou talvez tenha sido só ela, porque só ela é que acreditava no para sempre daquela paixão que julgava ardente e verdadeira.

No dia em que lhe disseram que ele não era o que ela pensava, ela recusou acreditar. Não podia ser verdade. Ela acreditava que conhecia o homem que tinha a seu lado. Contudo, a desconfiança ficou lá. Porque lhe diriam aquilo se não houvesse um fundo de verdade? Por isso, num dia em que ele chegou tarde a casa e foi imediatamente tomar banho, ela saiu da cama e procurou o telemóvel dele. Encontrou-o no bolso do casaco e, depois de marcar o código de bloqueio, abriu a caixa de mensagens. E foi aí que ela sentiu que o tapete lhe fugia debaixo dos pés. Desejou estar a sonhar, beliscou-se várias vezes e abriu e fechou os olhos outras tantas, mas era inevitável. Não era um sonho. Era a realidade.

Não sabia como lidar com uma traição. Fechou-se dois dias em casa. Dois dias em que não fez rigorosamente nada a não ser perguntar-se porquê. Ao fim de dois dias percebeu que tinha apenas uma solução: agarrar-se ao trabalho, a única coisa que a fazia sentir minimamente realizada. E foi isso que fez. Dedicou-se de corpo e alma ao trabalho e, durante estes cinco anos, subiu várias vezes de cargo. Possui, hoje, um dos cargos mais altos da empresa e as reuniões, os projetos e os relatórios não dão tempo ao seu coração para sentir saudade, carência ou tristeza. Ela sabia e sabe que não é feliz. Mas consegue sorrir ainda que o coração chore e ri à gargalhada ainda que o seu corpo seja vazio de alegria. Foi a máscara que criou para sobreviver. Quem não a conhece acredita que nada a derruba, porque ela esconde todas as fragilidades. Mas, sozinha consigo, ela sabe que o coração é o seu ponto fraco. Ela sente falta de um beijo e de um abraço de amor. Sente falta de um bom dia capaz de dar raios de sol à chuva. Sente falta de chegar a casa e ter alguém com quem partilhar as suas vitórias e recuperar das suas derrotas. Sente falta de um homem que lhe tire o fôlego. Porém, foi assim que escolheu. Nunca ousou amar. Nunca deixou sequer que alguém lhe tocasse, de novo, no coração. Tinha medo. O coração dela era medo de sofrer outra vez.

E aquela manhã, no meio daquela multidão, era apenas mais uma manhã na sua vida. Era mais uma manhã de um rosto maquilhado e iluminado, de uma indumentária com cor e com vida, de um salto alto capaz de intimidar qualquer um, mas de um coração morto. Um coração morto há cinco anos.

Mas talvez tudo viesse a mudar.

Enquanto analisava a ordem de trabalhos da reunião que teria, assim que chegasse à empresa, sentiu alguém chocar contra ela, derrubando todos os papéis que ela trazia na mão. Baixou-se para os apanhar e foi aí que sentiu outra mão tocar a sua. Uma mão forte, mas macia e que segurava firmemente a dela. Aquele toque arrepiou-lhe o coração. E ela já não sabia o que era sentir o coração arrepiado. Aliás, ela pensava ser um coração morto. Olhou-o. Era a mão do homem com os olhos azuis mais bonitos e penetrantes que alguma vez ela viu.

— Peço desculpa. Estava completamente distraído.

— Eu é que peço desculpa. Estava distraída a ler os papéis. – Diz, sem conseguir desviar o olhar daqueles olhos cor de céu.

Ele devolve parte dos papéis que apanhou.

— Obrigada. – Responde ainda a tentar compreender o arrepio que sentiu.

Ficaram a olhar-se. Estavam tão completamente inebriados um no outro que não conseguiam desviar os olhares. Sorriram. Foi como se o tempo tivesse parado. Sentiram que se conheciam desde sempre, ainda que aquela fosse a primeira vez que os seus olhares se cruzavam.

— Sou o Paulo. – Diz com um sorriso crescente nos lábios.

Ela, ainda incapaz de ter qualquer reação, diz atrapalhada:

— Margarida. Chamo-me Margarida.

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RAQUEL FERREIRA, a engenheira
É de uma aldeia perdida no norte do país e ambiciona ser mestre em Engenharia Civil. No percurso, apaixonou-se pelas palavras e escreve. Sobre tudo. Sobre nada. Ainda não é tudo o que quer ser, mas luta todos os dias por isso.