Sonhar, amar e viver!

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Fotografia © Zak Suhar | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Sonhar, amar e viver!

Como se de um belo sonho se tratasse, vivíamos tornando realidade as fantasias criadas na saudade da grande separação. Agarrávamos o tempo, querendo que fosse só nosso. Aconteciam as loucuras. Valorizávamos as mais simples dádivas da vida que eram tão nossas e nos faziam felizes. E, assim, aconteciam um jantar à luz das velas, um cinema ao ar livre num ambiente paradisíaco, um passeio romântico…

Cada dia era uma nova aventura ou uma descoberta de algo que ainda não conhecíamos em nós e que vinha enriquecer a nossa cumplicidade, o nosso amor. Havia, sim, uma realidade que nos dizia que o pesadelo não terminara. Ainda reféns de uma guerra, sabíamos que havia situações por resolver. Numa ilusão consentida, num sonho desejado, fortalecíamos a esperança. Queríamos ser livres. Todavia existiam amarras na nossa liberdade. Não nos deixavam voar tão alto quanto desejávamos. Voávamos muito baixinho, mas voávamos. O nosso amor fortalecía-nos. Vivê-lo era a nossa vitória. A nossa felicidade era a nossa grande conquista. Os nossos voos eram a nossa vida, compartilhada na mais bela intimidade!

Não foi necessário muito tempo para que o apartamento do alferes recém-casado se tornasse num porto de abrigo. Noite após noite, vinham os amigos, os camaradas militares. Se a realidade era dura, nós nos esforçávamos por adoçá-la! Havia que sublimar muito do que ficara para trás. Urgia transformar o desânimo na luta pela merecida felicidade. A música fazía-nos companhia, convidava a dançar! Como que inebriados pelos nossos desejos, sentíamos o sol brilhar nos nossos corações!

Alguém, um dia, comentou: «Isso não é um apartamento, não é nada. Isso é uma noite, é um cabaré!» Porventura, poderia parecer. Era o nosso pequeno mundo. Aqui, sentíamos o tão desejado calor humano. Aqui, éramos nós próprios. Aqui, éramos os donos das nossas vidas. Aqui, sonhávamos! E, grande irona, acabava por acontecer o impensável. Fazía-se humor com o que antes fora dramático. Acontecia recordar-se aquela emboscada! Rebentou uma mina, instalou-se o pânico e a desorientação. Um soldado ficou sem um pé. Qual o seu desespero? «E, agora, meu alferes, eu vou ter que pagar a bota?» Um outro ignorava os ferimentos, procurava desesperadamente a arma. «Ajude-me, meu alferes. Estou desgraçado! A minha arma?» E o capitão? Ninguém sabia dele! Foi encontrado, finalmemte, “colado” aos pedais da viatura! Não conseguia sair sem ajuda. E havia os que não tinham resistido aos ferimentos. Eram recordados com a dignidade que mereciam. Continuavam vivos nos corações dos que ficaram.

Era lembrado o alferes que cumpria pena de prisão. Porquê? Algures, no mato, fizera um pacto de não agressão. Cumpria o exigido — não hastear a bandeira portuguesa. Aconteceu a visita de um superior. Foi dada a ordem por este. Imediatamente, a bandeira foi hasteada. Acto contínuo, perante todos: o alferes atingiu a bandeira com uma rajada de metralhadora.

E havia mais, muito mais! Assim lidávamos com esta guerra injusta e cruel, como todas as outras. Ríamos. Não tínhamos lágrimas. Queríamos afastar os fantasmas que nos perseguiam. Não estávamos numa frente sangrenta, onde se viviam horrores. Aqui, na retaguarda, sem poder opinar ou julgar, sentíamos as amarras, as obrigações, as sanções duras e puras. Recebíamos os que vinham do mato com os seus dramas, as suas angústias.

Naquela noite, para o alferes acabado de chegar daquele “inferno” foi uma Old Parr, gelo e um copo. Durante todo o tempo, esteve sentado no chão. A garrafa por companhia. Por fim, levantou-se. A garrafa vazia. «Pessoal, foi porreiro! Até amanhã!»

Também partilhávamos da alegria dos que viam terminado o pesadelo.

Nós não queríamos pensar que estávamos ali porque havia uma guerra. Todavia, a realidade mostrava-nos que não podíamos baixar os braços.

Sem querer, éramos empurrados para a luta! Lutávamos, sim! Afinal, só queríamos conquistar os nossos sonhos. Afinal, só queríamos amar e viver!

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MARIA REIS, a avó-sorrisos
Ela não é uma mulher rica. É, sim, uma rica mulher! É dona de um coração generoso, que já ultrapassou sofrimentos, mas também sabe muito sobre o amor. É sonhadora: os sonhos estão sempre lá e o seu percurso de vida foi-se construindo com a realização de muitos deles. Desafios? Sim, aceita-os com determinação e entusiasmo. E, como alguém disse, «às vezes, é uma caixinha de surpresas».