Os paradoxos do amor

2046
Fotografia © Michael Ramey | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Michael Ramey | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Na inocência da nossa infância, atrevemo-nos a imaginar, nos nossos sonhos, o amor a ser vivido com a pessoa perfeita, que não é mais do que alguém criado à nossa medida, com todas as características que consideramos, teoricamente, ideais num parceiro. Hoje, todos sabemos que, mesmo que encontremos o amor, nem o sentimento, nem o alvo do mesmo, será como imaginámos. Não há perfeição, nem o «felizes para sempre». Talvez para alguns.

Essa pessoa não será o que sonhámos, nem virá com selo de garantia de felicidade eterna. Será um ser humano, com todas as suas idiossincrasias, que terá defeitos e qualidades, como nós; que terá sonhos e medos, como nós. E é por isso que um dos maiores desafios do amor é aprender a aceitar o outro como é. Afinal, porquê esperar um ser perfeito se nós próprios não o somos?

O amor não se escolhe. Simplesmente, acontece. Mas, muitas vezes, não ganha vida, porque o amor do tipo recíproco é do tipo mais raro e, para tantos de nós, comuns mortais, não está ao nosso alcance. Se, para uns, a sorte bate-lhes à porta, se não for à primeira tentativa, pelo menos à segunda ou à terceira, para outros já não será bem assim. Estes, de derrota em derrota, começam a sentir que estão constantemente a ir contra uma parede e que, se calhar, não é mesmo esse o seu destino. No entanto, não é por saber que esse amor nos é negado com toda a veemência que o deixamos de ambicionar. E é assim que aprendemos que o amor nos deixa à mercê e que pouco conseguimos fazer para contrariá-lo. Pagamos o preço, mas não temos direito ao seu benefício.

Infelizmente, mesmo quando o amor não é correspondido, estamos sujeitos a padecer de muitos dos sintomas e vontades do que aqueles, que têm essa sorte, também padecem. Damos por nós a amar e a desejar. Damos por nós a sofrer com a sua ausência e a preocuparmo-nos com o seu bem-estar, mesmo sabendo que tudo isso não o trará para o nosso lado. Queremos o tudo e não o nada que temos. Queremos estar presente na sua vida. Ser o seu braço direito e a sua confidente, a sua amante e a sua companheira, o seu amparo na tristeza e a sua cúmplice na alegria. Queremos partilhar o tanto que temos de nós com alguém.

Não nos reconhecemos no amor porque ele nos transforma. Descobrimos um lugar em nós que até então desconhecíamos. O lugar onde é possível tamanho sentimento nascer, florescer, amadurecer e permanecer. Um lugar que fica no nosso eu mais recôndito, onde mora a nossa essência. Redescobrimo-nos.

No amor, o corpo e alma estão em rara sintonia naquilo que desejam e este é um querer que não controlamos.

Amar é um estar em permanente construção, com altos e baixos, obstáculos e conquistas. São projetos alterados inúmeras vezes, começos e recomeços, fissuras e remendos. Pode transformar-se num casa sólida preparada para enfrentar os embates da vida, como pode cair aos primeiros abanões. Pode ser um empreendimento de uma vida, ou não.

O amor é o mais doce e cruel dos sentimentos. Leva-nos ao céu e joga-nos no inferno. É uma benção e, ao mesmo tempo, uma maldição. Tem tanto de belo quanto de assustador. Tanto nos liberta como nos aprisiona. O amor tem o poder de despertar quer o melhor de nós, quer o pior. Tanto nos eleva quanto nos arrasa, tanto nos cura como magoa. Desejamo-lo tanto quanto fugimos dele. O amor é o maior de todos os paradoxos.

Chega a ser inquietante saber que uma só pessoa poderá ter tanto poder sobre nós.

Comments

comments

PARTILHAR
Artigo anteriorSorri para a vida
Próximo artigoFecha a porta!
ANA PEREIRA, a inquieta
Nasceu numa noite estival, mas tem alma outonal. Convive com os números, mas encontra refúgio nas palavras. Aparenta serenidade, mas governa-a uma mente deveras inquieta. Se lhe perguntarem, é assim que se define a si própria. Aliás, estas foram palavras dela.