Roubaram-me de mim

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Fotografia © Emma Simpson | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Emma Simpson | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Fui raptada por um monstro.

Este é, numa breve e curta frase, o resumo da história que vos vou contar.

Era eu uma jovem. Daquelas de sorriso fácil. Energia suficiente para aguentar várias maratonas seguidas sem pausas. Cheia de cor nas peças de roupa escolhidas a dedo e na alma que raramente se deixava assombrar. A menina que transbordava luz e vida a quem a rodeava. Sonhadora até acordada. Esperançosa de que tudo aconteceria no seu respetivo momento e lugar. Crente de que o bem existe e de que prevalecem os finais felizes. Enfim, uma imatura iludida pelas histórias contadas por quem outrora as viveu.

Até que, um dia, a sair da escola de mochila às costas, entre cantorias pelo caminho de regresso a casa depois de mais um dia cheio de estudo e brincadeiras, o pesadelo aconteceu.

Naquele dia, não tinha amigos para me acompanhar e alguém melhor que eu sabia disso. Aquele monstro, que me observou durante tempo suficiente até saber a minha rotina, estudou tudo ao pormenor de forma a poder seguir todos os meus passos.

E foi assim que, em breves segundos, numa rua que eu considerava movimentada o suficiente para seguir os ensinamentos da minha mãe, fui apanhada de surpresa e vi, pela última vez, o sol; respirei os últimos momentos de ar puro e vi, pela última vez, cor.

Só me recordo de desmaiar, pois era pouco o ar que recebia embrulhada naquele cobertor. E de chorar por dentro, com soluços descontrolados e uma angústia incalculável. Repetia para mim mesma, diversas vezes, as seguintes frases: «Isto não está a acontecer. É só um sonho. Eu estou a sonhar!» «Quem me está a levar? Para onde? Porquê?»

E, neste momento, já tinha sido atirada para dentro de uma carrinha, e estava a ser levada para algum lado. «Queria tanto que isto não me estivesse a acontecer, tanto.»

A carrinha parou. Fui agarrada e transportada como um animal. Senti, perto do meu ouvido, a respiração do monstro que me estava a fazer passar por isto. Estava a ser levada para algum lado. Não ouvia vozes, nem movimentação. O sítio teria sido escolhido e preparado para me receber. Sem nada, nem ninguém por perto para atrapalhar.

Não conseguia controlar a minha respiração. Estava de tal forma descontrolada que sintia dor nos pulmões, no peito, no coração, que parecia estar a comunicar comigo, dizendo que poderia parar a qualquer momento.

E ele desenrolou-me do cobertor. E eu vi o monstro que me raptou pela primeira vez.

[Silêncio ensurdecedor]

Nem consigo explicar por palavras o que senti, mas nojo, raiva e ódio são alguns dos adjetivos que consigo usar. O meu mundo encantado e colorido tinha morrido ali, e assim se construiu um verdadeiro cemitério.

Não importa o que aconteceu a seguir. Eu morri no momento em que fui raptada e fechada numa caixa de fósforos.

Não se tira a vida a quem quer viver.

Não se roubam sonhos a quem ainda os tem.

Não se pinta a preto e branco um mundo encantado.

Não se prende quem só sabe viver em liberdade.

Não impeças ninguém de ser. Será sempre como um pirilampo sem luz. Uma borboleta sem cor, nem asas. Um mundo e uma vida cinzentos.

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