Pediu-lhe que fosse feliz

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Fotografia © Matthew Wiebe | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Matthew Wiebe | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Pediu-lhe que fosse feliz. Pediu assim com uma voz fria, com um toque no ombro como quem toca numa pessoa que não lhe é nada. «Se precisares de alguma coisa, apita.» Se ela precisar de alguma coisa que apite? Ela que esteve ao lado dele quase cinco anos ia «apitar», se precisasse de alguma coisa?

Ficou a pensar naquele toque no ombro, um toque de indiferença. Que repugnante tinha sido aquele momento. Ligou o carro e foi-se embora. Cansou-se de ser humilhada por aquele com quem partilhou tantos sonhos, tantos sorrisos, tantas lágrimas. Como é que as pessoas se amam até o coração não poder mais e, depois, de um momento para o outro, não se aguentam frente a frente?

Carregou no acelerador com a mesma intensidade da raiva que tinha no corpo. O coração a sangrar, o olhar a inundar-se de lágrimas e o desespero a apoderar-se das suas entranhas. Nunca se tinha sentido assim: vazia. Talvez por ter vivido aquele amor como a única coisa que realmente lhe importava, por ter vivido aquele amor dentro de uma bolha de ar que não tinha coragem de rebentar. O amor deles era uma espécie de um bebé que na barriga da mãe se sente protegido, mas, assim que enfrenta o exterior, tem de desenvolver as suas capacidades para lidar com o mundo. E o amor deles não sabia lidar com o mundo, não tinha desenvolvido as capacidades necessárias para isso. Aquele era o mundo deles, onde só eles existiam e nenhum amor sobrevive assim. Mas eles acreditavam que sim, acreditavam que eram diferentes e foi exatamente por todas essas certezas que ela nunca pensou perdê-lo.

E, no interior daquele carro, naquela noite fria de dezembro, ela sentiu um desespero a apoderar-se do corpo. Um desespero que não conseguia controlar. Como uma névoa que a envolvia e a transportava para outra dimensão, uma névoa asfixiante. Nunca se tinha sentido assim. Nunca lhe tinham roubado algo tão grande. Ela viveu aquele amor de tal forma que depositou nele a alma dela. Ela ficou apenas com o corpo e com a sensação repudiante daquele toque no ombro, que corroía tudo o que lhe restava.

Aquela névoa de desespero continuava a envolvê-la, a noite cada vez mais fria e escura e o acelerador cada vez mais fundo à medida que a raiva crescia. Assustava-a o futuro. Ela nem sequer sabia o que era. Ela sabia o que era com ele. Sem ele, ela nem sequer sabia de que música gostava.

Mas aumentou o som do rádio. Queria barulho. Queria desviar os pensamentos que lhe toldavam a visão do futuro. E a névoa do desespero a sugá-la, a noite gelada e negra, o acelerador o mais fundo que conseguia. No pensamento, a frase: «Se precisares de alguma coisa, apita.» O coração disparou e o desespero apoderou-se completamente dela. Perdeu as forças e a névoa toldou-lhe, por fim, a visão. O pânico de ficar sozinha. O pânico de ficar sem ele. Foi o pânico que se apoderou dela. Lembra-se de sentir o carro a zigazear pela estrada vazia e escura, de perder o controlo sobre os movimentos, até que apagou completamente.

Não se lembra de mais nada. Até ao dia em que acordou no hospital, com um raio de sol a entrar-lhe pela janela da enfermaria. Ficou, por instantes, a contemplar a paisagem: o sol, as árvores, as flores no jardim. Parou para pensar. As flores no jardim? Das poucas coisas que se lembra é que era inverno naquela altura. Desviou o olhar e viu a mãe e vários médicos. Pergunta-lhe imediatamente o que tinha acontecido e como é que havia sol e flores se ela se lembra perfeitamente que tudo aconteceu no mês de dezembro. A mãe, visivelmente emocionada, responde-lhe:

— Estiveste quatro meses em coma, minha querida. Já quase tinha perdido as esperanças de que acordarias, mas o meu coração está tão feliz, filha. Rezei todas as noites por ti, todas.

— Mas, mãe, o que aconteceu naquela noite? Só me lembro de começar a perder os sentidos, de começar a perder a visão e não me recordo de nada mais.

— Tiveste mais um ataque de pânico, querida. E naquela noite estavas sozinha. Segundo a peritagem, vinhas a alta velocidade e embateste contra uma árvore. Os médicos tinham-me dito que não acreditavam na tua recuperação, mas hoje estás aqui e isso é tudo que me interessa.

— E o Diogo? Onde é que está o Diogo?

A mãe sentiu o coração apertado.

— Meu amor, tu e o Diogo terminaram naquela noite. Procurei-o quando soube do teu acidente e ele contou-me tudo. Ele veio ver-te, mas sentiu-se tão culpado que não conseguiu voltar mais. Deixou-te um ramo de flores no dia em que cá veio e entregou-me um bilhete para te entregar no dia em que acordasses. Pensei que nunca to iria entregar.

— Onde é que está esse bilhete?

— Tenho aqui na mala. Mas é melhor leres noutra altura, querida. Agora, precisas de recuperar.

— Mãe, eu preciso de o ler agora, por favor.

A mãe remexe a mala e dá-lhe o envelope. Ela abre. No bilhete pode ler-se:

«Querida Beatriz,

Perdoa-me o egoísmo desta carta. Aliás, perdoa-me toda a cobardia desta nossa relação. Não vou conseguir voltar a esta enfermaria para te ver. Sinto-me culpado. Não devia ter-te deixado ir sozinha para casa naquele estado. Mas estava tão magoado quanto tu, embora tu acredites que nós só não estamos juntos porque eu quis, embora eu te tenha tratado mal, mas naquele momento foi a mente a falar mais alto que o coração, foi a constatação de que não podíamos continuar a viver assim. Eu amo-te! Percebi isso quando te vi aqui. E não foi por te ter visto numa cama de hospital e por a culpa ter tomado conta de mim. Percebi que te amo porque o meu coração é medo de te perder. E é por isso que não consigo voltar aqui. Não quero, um dia, chegar a esta enfermaria e tu não estares aqui. Não quero que morras, Beatriz. Não depois de tudo o que aconteceu. Tu sabes tão bem como eu que a nossa relação não podia continuar fechada naquela bolha de ar. Por mais que nos amassemos, não podíamos continuar isolados do mundo. Estava a fazer-nos mal e tu sabes. Perdoa-me. Perdoa-me o egoísmo, perdoa-me aquela noite, perdoa-me, mas tenho de ir, tenho de ir onde sempre me pediste que fosse. Vou fazer por mim, como sempre quiseste que fizesse. Não estou preparado para te perder assim. Espero que, um dia, possas ler esta carta. Eu acredito que ainda tens muito para viver. E eu gostava de viver esse resto da tua vida ao teu lado. De forma diferente, é claro, mas os erros são as nossas maiores aprendizagens. Porque, como dizia aquele escritor que adoravas, «há para sempres que não começam à primeira tentativa».

Com amor,

Diogo»

Olha para os médicos e pergunta:

— Quando é que eu posso sair daqui?

— A menina terá de fazer vários exames e fisioterapia durante algum tempo. Esteve muito tempo em coma. Tem de ser paciente.

— E quanto tempo demorará essa recuperação?

— Depende da sua força e determinação para recuperar. Mas, se tudo correr bem, daqui a seis meses poderá estar totalmente recuperada e voltar a fazer a sua vida normalmente.

Beatriz fica em silêncio, por instantes. Depois olha a mãe e diz-lhe:

— Mãe, tira-me um bilhete de avião para Nova Iorque para daqui a meio ano.

— Ó filha, mas para que é que tu queres um bilhete de avião para daqui a seis meses? Tens de te concentrar na tua recuperação. E porquê Nova Iorque?

— Mãe, porque é lá que o Diogo está. E eu vou ter com ele.

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RAQUEL FERREIRA, a engenheira
É de uma aldeia perdida no norte do país e ambiciona ser mestre em Engenharia Civil. No percurso, apaixonou-se pelas palavras e escreve. Sobre tudo. Sobre nada. Ainda não é tudo o que quer ser, mas luta todos os dias por isso.