Deixa-me entrar na tua vida

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Fotografia © Everton Villa | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Everton Villa | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Deixa-me entrar na tua vida.

Não te peço que escancares a porta assim do nada. Só peço que a abras, mesmo que aos poucos. Sei que espreitas do outro lado, hesitante, com receio daquilo que deixarás passar. Mas, se nunca o fizeres, nunca saberás o que estás a bloquear.

Não sei se és fera ferida, que, embora queira que se aproximem dela, foge de cada vez que damos um passo em sua direção com medo que lhe façam mais mal. Ou se, apenas, queres que te deixem só e quieto no teu canto.

Mas, se és fera ferida, sei o que isso é. Também eu o sou. E, mesmo com a cicatriz ainda a repuxar a pele aqui do lado esquerdo e mesmo com o medo a fazer-me tremer, decidi bater-te à porta. Porque talvez haja alguém por aí que aprecie o que tenho para oferecer, mesmo que isso venha num pacote embrulhado em papel amachucado e com o laço desfeito. E talvez esse alguém sejas tu. Mas não conseguirei chegar até ti se não me ajudares, se não me conduzires por ti, pelos caminhos do teu eu e me levares a descobrir quem és.

Tenho tanto receio de dar um passo em falso e que isso te afugente para longe, para um lugar onde não te encontre mais.

Acredita mais. Também tens tanto para dar. Tiques e manias todos temos. Defeitos e falhas, também. Caráter do bom, esse, já é mais difícil. E tu o tens.

Tens muitas das qualidade que valorizo num homem, sabias?

Também eu tenho as minhas dúvidas, se me aceitarás como sou. Questiono-me tantas vezes se serei digna de ti, se não merecerás melhor do que eu. Mas nunca o saberei se não tentar.

Já descobrimos muito do que temos em comum. Já começámos a conhecer onde estão as nossas diferenças. Já revelei mais sobre mim a ti do que a outros que conheço há muito mais tempo.

Confia mais. Deixa-me chegar mais perto. Não te peço tudo, mas peço-te um pouco mais. De ti e o do teu tempo.

Sei que tudo o que chega de novo estremece a nossa zona de conforto, porque temos que adaptar-nos, e isso dá trabalho e, às vezes, também é doloroso. Mas pode valer a pena, porque, se calhar, o que se segue é ainda melhor.

Não me deixes à soleira da porta. Preciso de passar além para chegar mais longe, para chegar até ti.

Arrisquemo-nos os dois, pois sozinha não o posso fazer. É claro que quem arrisca pode sair magoado. Mas diz-me: preferes viver na dúvida?

Procura-me quando precisares de ser ouvido. Procura o meu abraço quando precisares de conforto. Procura o meu olhar quando precisares de força. Ou, simplesmente, procura-me.

Permite que te dê um pouco mais de mim.

Deixa-me segurar-te a mão e ir, contigo, de encontro ao futuro, porque ele não espera por ninguém, mas também não se revela antes de lá chegarmos. Só saberemos se este futuro será comum aos dois se seguirmos, lado a lado, a linha do tempo que nos levará até lá. Só aí encontraremos a resposta à questão que hoje temos.

Valerá a pena o risco?

Dá licença à esperança para que se instale no teu peito.

Deixas-me, então, entrar na tua vida?

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ANA PEREIRA, a inquieta
Nasceu numa noite estival, mas tem alma outonal. Convive com os números, mas encontra refúgio nas palavras. Aparenta serenidade, mas governa-a uma mente deveras inquieta. Se lhe perguntarem, é assim que se define a si própria. Aliás, estas foram palavras dela.