A contagem do tempo

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Fotografia © Cesar Quintero | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Cesar Quintero | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Descalçou os sapatos, largou a mala, o casaco, desprendeu o cabelo e subiu ao muro mais alto. Estava no ponto mais alto da cidade. Sempre adorou aquele jardim imenso, com ruínas do que antes havia sido um castelo, esquecido e belo, no coração da cidade. Não conseguia perceber como é que há tanto tempo não punha lá os pés.

Sentiu o muro de pedra ainda quente, por baixo dos pés, aquecido pelo sol, que agora não passava de uma linha alaranjada no horizonte. Olhou em volta e viu a cidade, as luzes de fim de tarde a aparecer. O cabelo esvoaçou e o vestido ondulava e vincava, levemente, as suas pernas e ventre. Fechou os olhos e sentiu a brisa nas maçãs do rosto. Levou as mãos ao ventre e sorriu. Rodopiou em cima do muro, de braços abertos. Ouviu a quietude do espaço, inspirou fundo e sentiu-se mais cheia que nunca. Só ela, o seu bebé.

— O nosso bebé, meu amor – disse baixinho, enquanto chorou a sorrir para alguém que já ali não estava.

Tinha acabado de descobrir. No caminho, olhou meia dúzia de vezes para o segundo teste positivo no fundo da sua mala. Ele tinha deixado o melhor presente de uma vida dentro dela, antes de partir.

Sentou-se no muro, cruzou as pernas e pensou naquela manhã, a última vez que o vira. Ainda tinha na boca o sabor do último beijo que ele lhe dera, antes de sair de casa. Sabia a pasta de dentes e café. Tinham feito amor nessa mesma manhã. Lembrava-se que estavam atrasados para o trabalho e, ainda assim, ele tirou um momento para a agarrar pela cintura, beijá-la e olhá-la nos olhos.

— Amo-te. És tudo para mim e estou mesmo feliz por te ter. És minha? — Perguntou.

— Sou tua. — Lembra-se de ter respondido, antes de o beijar de volta.

Estavam a tentar ter um filho ia para três anos, entre tratamentos e alguma frustração. Ele nunca desistiu dela. Aturou todas as birras, todos os medos, todos os humores perante os tratamentos e ainda assim conseguia desejá-la.

Ia sentir a sua falta toda a vida. Tinham-se encontrado há muitos, muitos anos, por destino, acreditava. Depois da sua morte, limitou-se a fazer o que era mecanicamente esperado dela: comer, dormir, trabalhar. Limitou-se a existir num limbo, que não era bem vida, não era bem morte, não era bem nada. Não dava um passo fora do trabalho-casa, casa-trabalho. Não queria ver ninguém, falar com ninguém. Só o queria a ele. Só queria o seu abraço.

Este fora o primeiro dia em que se atrevera a sair do caminho, que fazia já em piloto automático, nos últimos dois meses. Foi a uma farmácia e fez o teste ainda incrédula por ter de sequer fazer o teste, mas andava a sentir-se tão estranha que teve de o fazer.

E, naquele muro, a ver a cidade lá em baixo, encarou a realidade. Estava grávida dele, de um pedacinho dele, após tantas tentativas. E ele não ia estar lá.

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ANDREIA FERNANDES, a destemida
27 anos. Sensível, engraçada e sarcástica. Convicta, mas sem fanatismos. Ansiosa e com uma queda para o dramático. Amante de leitura, música, cinema, pessoas de bom coração e mesas bem servidas. Sonha percorrer o mundo, e saber um pouco de tudo, sem nunca ter certezas absolutas de nada. Acredita piamente que a busca pela individualidade é infinita, que o amor se faz chegar de todas as formas e que não há limites para se ser feliz.