Corri até não haver saída

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Fotografia © Cesar Quintero | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Cesar Quintero | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Aqui estou eu, de novo.

Aqui estou eu, de novo, a olhar para o infinito, com o olhar desfocado, com a cabeça a latejar de mil pensamentos, com o coração a doer de feridas abertas que não saram.

Mais uma vez, fugi dali para fora. Da casa onde deveria sentir-me bem, do homem que me ama, da vida que insisto em tentar.

Corri até não poder mais. Corri até me doerem os pés. Corri até não conseguir respirar. Corri até não haver saída.

A ti, que me amas todos os dias…

Eu tentei. Eu tentei, vezes sem conta, amar-te. De verdade! Mas não consigo sequer fazer amor contigo, não consigo deixar-me levar sempre que tentas desvendar o meu corpo. Não consigo valorizar tudo aquilo que fazes por mim. Desculpa. Mereces mais e melhor.

A culpa não é tua. A culpa é daquele monstro, que me feriu emocionalmente mesmo antes de eu ser mulher. Levou o melhor de mim com as seus atos nojentos. E eu não consigo esquecer. As imagens continuam na minha cabeça. Desculpa.

Mais uma vez, caí no erro de procurar em ti o amor que nem eu própria sinto por mim. Mas nem o teu amor sara as feridas, nem o teu amor faz doer menos, nem o teu amor impede as lágrimas de correr.

Pensei que pudesse ter poder sobre a minha mente, sobre o meu coração. Mas não consigo controlar nada. Sinto que a minha vida desapareceu, mesmo antes de eu poder alcança-la!

Eu tentei. Eu tentei que a minha vida parecesse normal, mas esta depressão continua. Acho que não conheço outra forma de estar na vida. Sabes que tudo piorou desde que o meu pai partiu. Não consigo compreender porque o meu pai, tão jovem, foi levado desta vida. E não poderá ver-me a terminar o curso, a casar, a ter filhos… Mas porquê? E eu… Eu não quero fazer nada destas coisas sem a presença dele. Já nada faz sentido.

E tu já olhaste bem para mim? Como podes continuar a amar-me? Nem eu própria me reconheço. Refugiei-me na comida, mais uma vez, até não caber nas roupas. Esperando que a comida me desse alento. Mas continuei a destruir-me. Agora odeio esta pessoa que vejo ao espelho. Sinto-me gorda e feia. Sinto-me triste. Sinto que não há saída.

Eu tentei. Eu tentei ser uma pessoa normal. Ter um trabalho, uma casa, uma pessoa que me ama. Mas não consigo ver nada para além da escuridão que me invade, não consigo sentir nada para além de dor e de tristeza.

E, no fim de contas, quem sou eu na imensidão deste mundo? Ninguém. Ninguém que importe recordar. Ninguém que importe amar. Nem eu própria consegui amar-me.

Não é a primeira vez que aqui estou. Mas será a última. Desculpa.

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CARINA MAURÍCIO, a fotógrafa
É budista e conservadora-restauradora. É de riso e choro fáceis. Tem tanto de sensível, quanto de corajosa e lutadora. Adora fotografar, jogar ténis e viajar. Viciada em comida, é fã de comida italiana. Gosta de dormir, de café, de chocolate. Dançar? Pode ser a noite toda. Mas também gosta de ficar na ronha, em casa, entre filmes e pipocas. Adora o som da chuva a cair no inverno e o som do mar em dias de verão. Campos floridos enchem-lhe o olhar, assim como as cores das folhas do outono. Apaixona-se facilmente e é uma apaixonada pela vida. Uma geminiana pura.