A bailarina

623
Fotografia © Cesar Quintero | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Cesar Quintero | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Ela corria.

Corria descalça pela longa calçada. Sentia o frio por baixo dos seus pés, mas não se importava. Estava cansada, ofegante – parecia que havia corrido quilómetros, mas não chegou a tanto. O pânico estava instalado nela própria. Agora, ela só queria imaginar. Só queria correr até ao pico do planalto. Já ouvia os ramos das árvores a dançarem com o vento e as folhas mortas a caírem sob os seus pés já sujos. A terra húmida entranhava-se nas suas unhas e entre os seus dedos.

Tirava os seus cabelos loiros que insistiam em tapar a sua visão e a sua boca, enquanto corria. O vento estava a fazer com que tudo dançasse. Os ramos das árvores, o seu cabelo, o seu vestido… E ela? Estava destroçada. Queria despreocupar-se.

Sonhava em largar tudo. Largar os seus problemas, mas o seu consciente permanecia pesado. Não podia gritar em casa e ser ela própria – tem que seguir regras, mas ela é rebelde. Ela fugiu. Só por umas horas… Só por um bocado… Só mesmo para ser ela própria.

Vive entre o medo e a incerteza. Vive no seio da instabilidade familiar. Tem 20 anos, mas é quem trabalha para manter a sua mãe e o seu irmão mais novo. Já para não falar do seu “padrasto”. Em casa ela limpa, ela faz o jantar, ela veste o seu irmão… Ela recicla as garrafas de álcool da sua mãe e descarta as seringas usadas do seu padrasto.

Esta noite tivera um pesadelo. Via-se no futuro como a sua mãe.

«Será que vou ser como ela?», perguntou ao seu próprio reflexo, no seu sonho. Uma voz caíra no seu ombro direito como um sopro ténue.

«Faz pelo teu futuro. Dança. Não sejas a Cinderela. Vem ter comigo!», ouvira em resposta. Era o seu pai. Mas já tudo estava negro e perdido. O espelho estilhaçara-se em cacos. Já se via como a sua mãe, chorando desesperadamente, agarrada ao balcão da cozinha com uma garrafa de vinho tinto na sua mão. Era o seu pequeno almoço.

«Não! Não!», acordara em gemidos. E, num sobressalto, agarrara numa pequena caixa pousada por cima da sua mesinha de cabeceira, que lhe fora oferecida pelo seu pai, quando tinha apenas doze anos de idade e que fora o último dia em que o tivera visto.

E corria.

E se a Cinderela quiser ser a bailarina?

Corria entre os pinheiros e calcava as folhas molhadas. As suas pernas nuas arrepiavam-se, tal como os seus braços descobertos.

Já estava no cimo do planalto onde avistava casas e carros. Avistava apenas meros pontos reluzentes que eram janelas e outros que seriam as luzes dos carros que passavam de longe. Já estava a cair a noite e apenas havia dormido umas duas horas.

Sentira-se insignificante.

E deixara que o vento começasse por tomar posse do seu corpo.

E levantara os braços, lentamente, em movimentos suaves. Da sua mochila tirara uma caixa e pousara-a por cima de uma pedra fria. Com as suas mãos finas abrira-a.

Uma melodia começara por cantar juntamente com o vento.

E dançava.

Era a bailarina que completava a caixa.

E rodopiava…

E sorria… Aguentara tempestades piores: furacões de raiva… Raiva que acumulara com o passar do tempo e com vivências que corroíam a ponta dos seus dedos.

E dançava… Cambaleava com os seus braços entre a ventania que lhe soprava a angústia. Estava agora intacta – corajosa.

Com as suas pernas saltitava em ritmo musical e sorria…

E rodopiava… Abraçava o seu destino…

E dançava…

Dera um passo adiante do precipício.

E entregara-se ao vento.

A caixa continuava a tocar…

sem a bailarina.

Comments

comments

PARTILHAR
Artigo anteriorSou nada, porém tudo
Próximo artigoDaqui, ela podia ser tudo
CÉSAR DA SILVA, o independente
Gosta de gelados - muitos gelados! Diverte-se com pouco e cansa-se da rotina facilmente. Gosta de rir e, acima de tudo, de escrever. Sente aquilo que escreve e imagina tudo num mundo totalmente diferente, criado na sua própria mente. Tem 22 anos e sempre conquistou a sua independência. Adora boas séries e bons filmes. É viciado em entretenimento. Escreve aquilo que sente e gosta de dar asas à sua criatividade.