
Olhava lá para baixo. O mundo, daqui de cima, parecia tão pequeno, insignificante.
Ela, normalmente, seria umas das muitas formiguinhas que, lá em baixo, andariam de um lado para outro na correria dos dias. E perdia tanto nesta corrida, tanto.
«Tu nunca tens tempo para mim!» A indignação do seu filho, de seis anos, ainda ecoava nos seus ouvidos.
«Depois…» era a resposta que lhe dava tantas vezes, já de forma inconsciente, como quem carregava num botão.
«Mãe, podes brincar comigo?»
«Depois…» E lá ia ele brincar sozinho, mais uma vez.
Ele ficava sempre para depois. Depois do seu trabalho, depois de fazer o jantar, depois de tratar da roupa, depois de despachar um relatório qualquer para entregar para ontem. Ao fim de semana, o ritmo não mudava muito. Tentava despachar, nestes dias, o que as horas dos anteriores não permitiam. Afazeres do trabalho, tarefas domésticas e outras coisas e coisinhas que se iam acumulando, porque o tempo, esse, era sempre escasso.
«Ajudas-me a estudar para a ficha de amanhã?»
«Pede ao pai.» Mas já se esquecera que o pai ainda não chegara. Ficara a fazer horas dadas. Sim, dadas, porque não acrescentavam valor a nada. Só perdia horas preciosas de vida, roubadas à família, a troco de nada. Haviam se tornado ambos escravos dos dias modernos.
Quando se sentava, caía logo no sono. Já não conhecia outro estado que não fosse o do cansaço permanente. Implorava por uma tarde de domingo, em que se pudesse refastelar num sofá e dormir o sono dos guerreiros vencidos.
«Mãe, levas-me ao cinema?»
«Para a semana, filho.» Mas passavam-se várias semanas até então.
Ao fim do dia, não tinha energia para nada, nem para si, nem para o filho. Às vezes, já nem força tinha para sair de casa. Vivia para os outros, mas não para os seus. Os outros é que ficavam com o melhor de si.
«Mãe?»
«Depois…» Já lhe respondia ainda antes do filho completar a pergunta.
«Porque é que tu nunca tens tempo para mim?»
Aquela pergunta inusitada despertou-a da sua letargia. O filho olhava para si, irritado, de braços cruzados, e com os olhinhos marejados. Segurava-se para não chorar, feito um homenzinho.
«Não sei…»
Não sabia mesmo. A vida não lhe dava tréguas. Pedia tudo dela. Esperava tudo dela. Mas não conseguia dar mais.
Levantou-se e dirigiu-se para a porta de casa. O ser olhar vidrado. Os punhos cerrados.
«Mãe, onde vais?» O filho vinha atrás. «Não te vás embora. Não fiques chateada comigo.»
«A mãe já volta. Diz ao pai que fui comprar pão.» Ajoelhou-se e deu um abraço apertado ao filho. «Já volto», sussurrou-lhe.
Precisava sair dali. Não queria que o seu filho a visse assim.
Caminhou rua acima, passo decidido. As lágrimas caiam-lhe desgovernadas. A certo ponto, descalçou os sapatos. As pedras da calçada magoavam-lhe os pés, mas sabia-lhe bem. Expurgava a culpa que sentia.
Quando chegou ao cimo, quase sem fôlego, foi até ao miradouro, olhou em volta e gritou. Gritou até deitar para fora toda a dor e revolta que sentia. Não era esta a mãe que queria ser. O seu filho pagava por pecados que não eram seus. Ela tinha que fazer alguma coisa, tinha que mudar.
Arranjar outro trabalho, talvez. Ganharia menos, se calhar. Mas ganharia em tempo o que perdia em dinheiro. Não podia manter as coisas como estavam.
Olhou lá para baixo à procura de uma resposta escondida por entre as sombras dos prédios. Arrepiou-se. O vento soprava frio. Vista daqui de cima, ela era um mero nada num mundo imenso. Mas até dum nada se pode fazer tudo.




