Sou nada, porém tudo

397
Fotografia © Cesar Quintero | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Cesar Quintero | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Olhava lá para baixo. O mundo, daqui de cima, parecia tão pequeno, insignificante.

Ela, normalmente, seria umas das muitas formiguinhas que, lá em baixo, andariam de um lado para outro na correria dos dias. E perdia tanto nesta corrida, tanto.

«Tu nunca tens tempo para mim!» A indignação do seu filho, de seis anos, ainda ecoava nos seus ouvidos.

«Depois…» era a resposta que lhe dava tantas vezes, já de forma inconsciente, como quem carregava num botão.

«Mãe, podes brincar comigo?»

«Depois…» E lá ia ele brincar sozinho, mais uma vez.

Ele ficava sempre para depois. Depois do seu trabalho, depois de fazer o jantar, depois de tratar da roupa, depois de despachar um relatório qualquer para entregar para ontem. Ao fim de semana, o ritmo não mudava muito. Tentava despachar, nestes dias, o que as horas dos anteriores não permitiam. Afazeres do trabalho, tarefas domésticas e outras coisas e coisinhas que se iam acumulando, porque o tempo, esse, era sempre escasso.

«Ajudas-me a estudar para a ficha de amanhã?»

«Pede ao pai.» Mas já se esquecera que o pai ainda não chegara. Ficara a fazer horas dadas. Sim, dadas, porque não acrescentavam valor a nada. Só perdia horas preciosas de vida, roubadas à família, a troco de nada. Haviam se tornado ambos escravos dos dias modernos.

Quando se sentava, caía logo no sono. Já não conhecia outro estado que não fosse o do cansaço permanente. Implorava por uma tarde de domingo, em que se pudesse refastelar num sofá e dormir o sono dos guerreiros vencidos.

«Mãe, levas-me ao cinema?»

«Para a semana, filho.» Mas passavam-se várias semanas até então.

Ao fim do dia, não tinha energia para nada, nem para si, nem para o filho. Às vezes, já nem força tinha para sair de casa. Vivia para os outros, mas não para os seus. Os outros é que ficavam com o melhor de si.

«Mãe?»

«Depois…» Já lhe respondia ainda antes do filho completar a pergunta.

«Porque é que tu nunca tens tempo para mim?»

Aquela pergunta inusitada despertou-a da sua letargia. O filho olhava para si, irritado, de braços cruzados, e com os olhinhos marejados. Segurava-se para não chorar, feito um homenzinho.

«Não sei…»

Não sabia mesmo. A vida não lhe dava tréguas. Pedia tudo dela. Esperava tudo dela. Mas não conseguia dar mais.

Levantou-se e dirigiu-se para a porta de casa. O ser olhar vidrado. Os punhos cerrados.

«Mãe, onde vais?» O filho vinha atrás. «Não te vás embora. Não fiques chateada comigo.»

«A mãe já volta. Diz ao pai que fui comprar pão.» Ajoelhou-se e deu um abraço apertado ao filho. «Já volto», sussurrou-lhe.

Precisava sair dali. Não queria que o seu filho a visse assim.

Caminhou rua acima, passo decidido. As lágrimas caiam-lhe desgovernadas. A certo ponto, descalçou os sapatos. As pedras da calçada magoavam-lhe os pés, mas sabia-lhe bem. Expurgava a culpa que sentia.

Quando chegou ao cimo, quase sem fôlego, foi até ao miradouro, olhou em volta e gritou. Gritou até deitar para fora toda a dor e revolta que sentia. Não era esta a mãe que queria ser. O seu filho pagava por pecados que não eram seus. Ela tinha que fazer alguma coisa, tinha que mudar.

Arranjar outro trabalho, talvez. Ganharia menos, se calhar. Mas ganharia em tempo o que perdia em dinheiro. Não podia manter as coisas como estavam.

Olhou lá para baixo à procura de uma resposta escondida por entre as sombras dos prédios. Arrepiou-se. O vento soprava frio. Vista daqui de cima, ela era um mero nada num mundo imenso. Mas até dum nada se pode fazer tudo.

Comments

comments

PARTILHAR
Artigo anteriorPodemos parar?
Próximo artigoA bailarina
ANA PEREIRA, a inquieta
Nasceu numa noite estival, mas tem alma outonal. Convive com os números, mas encontra refúgio nas palavras. Aparenta serenidade, mas governa-a uma mente deveras inquieta. Se lhe perguntarem, é assim que se define a si própria. Aliás, estas foram palavras dela.