Faz hoje um ano que te perdi

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Fotografia © Cesar Quintero | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Cesar Quintero | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Aqui, no cimo de tudo. Olho a imensidão da cidade à minha frente, debaixo de mim. Daqui o mundo parece não ter fim. As janelas das casas iluminadas. Os faróis dos carros que deambulam pelas ruas, meros pontos luminosos parecendo estrelas. E as pessoas, formiguinhas azafamadas, quase invisíveis.

Anoitece e uma brisa fria se levanta, dançando com os meus cabelos, arrepiando-me as pernas despidas, os pés descalços, a alma vazia. Hoje faz um ano que te perdi. Que desististe de lutar. Perdeste a fé na cura. A tua mente balançou. O teu corpo sucumbiu.
E eu, agora, jazo aqui neste mundo, moribunda, sem ti. Não vivo, nem sobrevivo. Só respiro.

Quero ir ao teu encontro, onde quer que estejas. Estou incompleta. Amar dói. Por isso, não me queria entregar. Sabes o que me custou, dia após dia, ir ficando, despir-me de mim, vestir-me de ti, de nós e depois ter de me despedir, cruamente, de ti? Sempre disseste que eu era a sonhadora, a motivadora, a que não desiste, a senhora de si. Pois, mas não sou mais. Deixei de ser eu. Passei a ser nós. Não sei voltar ao eu outra vez.

Aqui, no cimo de tudo. Lembras-te? Depois da festa, viémos aqui. Descalcei-me por já não suportar os saltos altos e tu, por solidariedade, fizeste o mesmo. E aqui ficámos, a admirar a paisagem, a fazer planos de vida, a sonhar. Trouxeste-me até à pontinha deste cimo, agarraste-me pela cintura, pediste-me para fechar os olhos e me inclinar, um pouco, para a frente. E eu assim fiz. Senti-me livre, mas segura. Para quem não queria ter amarras, estava completamente enleada na confiança cega que te tinha, no amor que nos unia.

Recordámos a nossa primeira noite de amor e em como me conquistaste, com o teu «Não vás. Não vás já. Fica mais um pouco. Fica até à eternidade». E eu fiquei. E agora?

Aqui, no cimo de tudo, dou um passo até à pontinha. Inclino-me para a frente e abro os braços, pronta para abraçar a morte. Fecho os olhos. Uma brisa me volta a arrepiar e eu oiço-te, no barulho ensurdecedor da minha mente, a dizeres-me: «Sabes como te amo e o quanto queria a eternidade contigo, mas ainda tens muita vida para viver, muito amor para dar e receber. A força está em ti! Sempre esteve, minha querida! Eu estarei a ver-te, a velar por ti, à tua espera.»

Inspiro uma última lufada de ar, enquanto uma lágrima me escorre pelo rosto, dorido de tanta amargura, e, num instante final, me debruço mais para ir ao teu encontro… Mas eis que a tua voz me entra novamente na mente e me sussurra: «Não venhas. Não venhas já. Fica, aí, só mais um pouco!»

E eu fiquei.

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SÍLVIA SANTOS, a menina-mulher
Diz, por brincadeira, que é a Sílvia e a Aivlis — o seu nome escrito de trás para a frente. Porquê? Porque é de opostos. Voa e rasteja. Ri e chora. Reflete e descontrai. Uma menina-mulher, das que não sabem que sabem e que pensam que não sabem, mas sabem. Forte, mas resistente. Insegura, mas persistente. Com sede de viver, de sentir, de experimentar coisas novas: tanto pratica artes marciais, como salta em queda livre no meio das palavras. O que a sufoca? A monotonia. Anda constantemente em busca de novos desafios — e foi assim que veio aqui parar.