Abandonada, mas amou-se

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Fotografia © Nick Karvounis | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Nick Karvounis | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Finalmente, chegou aquele grande dia, o tão esperado ao longo de tantos anos. Um namoro de 10 anos, com um amor invejável, com uma paixão avassaladora. Planos para uma vida. Um casal perfeito. Um pedido feito debaixo da mesa de jantar, em casa dos pais dela, com direito a um anel lindíssimo. O engraçado é que ninguém da família se apercebeu de tal pedido, mas, quando ela levantou a mão com o anel já no dedo, foi emoção ao rubro.

Foram semanas atarefadas de preparativos para o casamento. Ela andava nervosa, mas radiante, com uma capacidade fora do normal para que tudo fosse perfeito. Ele não sabia bem o que fazer, nervoso, mas confiante de que ela era perfeita e capaz de fazer tudo sozinha e preferiu manter-se à margem, dizendo que sim a tudo. Mil provas de vestidos de noiva. Foi cansativo, mas muito emotivo até ao dia em que vestiu o talAs lágrimas caíram naquele rosto de menina inocente, que mais parecia sair de um conto de fadas.

Finalmente, chegou aquele grande dia!

Maio foi o mês escolhido. Até no mês ela não facilitou. Tudo tinha que ser perfeito! A decoração da igreja estava maravilhosa. A música, as vozes do coro, as flores brancas espalhadas pelos bancos, o depoimento emotivo que iria ser lido pela irmã no altar da igreja — tudo era mágico e mais parecia ter sido retirado de um conto de fadas. Tudo foi pensado ao pormenor para não haver falhas. Ela era exigente e perfecionista, por isso não se iria perdoar se algo corresse mal. Esperava aos noivos imensas surpresas, que os faria arrepiar de emoção. Estavam todos os convidados dentro da igreja. Todos com sorrisos felizes, ansiosos por ver aquela cerimónia tão esperada. Tudo fazia prever que seria uma cerimónia perfeita.

Ela chegou à igreja primeiro do que ele, o que não estava previsto. Ficou nervosa e não conseguiu entrar em contacto com ele para perceber o motivo da demora. Mas, determinada e confiante como ela era, decidiu entrar na igreja e esperar por ele no altar. Os convidados não se tinham apercebido de nada. Simplesmente acharam que a noiva era original e porque não ser ela a esperar o noivo no altar? Quando entrou na igreja, estava emocionada. Ela estava lindíssima.

A ansiedade instalou-se de uma forma dura e preocupante. O noivo não chegava e a inquietude já se fazia notar nos rostos dos convidados. Depois de meia hora, finalmente a noticia. Um desconhecido entrou na igreja e entregou à noiva um bilhete. Ela sorriu. Pensava que seria uma surpresa que o noivo tinha reservado para ela.

Em voz baixa leu:

«Não te questiones sobre o que se passou hoje. Fui cobarde. Fui o pior ser humano à face da terra. Sei que estavas feliz por casar, mas eu não! Tenho medo do compromisso. Não sei lidar com a tua felicidade. Sou egoísta e fraco. O pior de tudo isto é que vou refazer a minha vida com outra mulher.»

Duro de ler, duro de aceitar que, afinal, os contos de fadas nem sempre têm um final feliz.

Derrotada pelo cansaço das lágrimas que lhe caíam pelo rosto, desceu as escadas do altar, abriu uma grande caixa branca que se encontrava no átrio da igreja e libertou centenas de balões brancos que lá estavam guardados.

Aquele maldito dia também foi a libertação para ela, porque foi ali que se valorizou como mulher, foi ali que se apercebeu que o grande amor da vida dela, afinal, era ela própria.

Finalmente, o grande dia chegou! Amou-se para sempre.

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MATILDE GOMES, a emotiva
É sonhadora — tanto que, desde há muito, tem uma lista de sonhos a realizar — e é a viajar que quer iniciar a sua aventura pela vida. Apaixonada pela leitura, é na escrita onde se sente livre, tendo sempre presente o amor e a dor. O seu interior é um turbilhão de emoções, onde reside as lágrimas e os sorrisos. Para a Matilde, o abraço é o gesto que melhor revela os sentimentos.