Às vezes, sabia bem um amo-te

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Fotografia © Carina Maurício | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Carina Maurício | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Fui jantar a um restaurante indiano. Apetecia-me comer algo diferente. Confesso que nem fazia ideia do que pedir. Mas a escolha foi acertada. A comida estava deliciosa. E o vinho também. Saí do restaurante já meio embriagada e com calor. Soube-me bem sentir o ar fresco da noite. Destas noites de outono em que o tempo arrefece e já se sente o cheiro das lareira no ar. Como eu adoro este cheiro! Vagueei pelas ruas escuras e desconhecidas. Imaginei a vida das famílias que via, através das cortinas das casas iluminadas, a jantarem juntos, a rirem, a conversarem. Imaginei-me a mim numa dessas casas, casada e com filhos. Senti-me triste e vazia. E, embora todos os dias adormeça sozinha, hoje está a custar-me adormecer sozinha nesta cama de hotel.

O dia esteve solarengo e os parques estiveram repletos de velhotes a jogar, crianças a correr, casais a namorar. Fiquei muito tempo a admirar a sessão fotográfica de um casal recém-casado. E escorreram-me as lágrimas pelo rosto. Naquele momento senti-me vazia. Embora esteja feliz, a fazer coisas que ambicionei e que adoro, senti-me vazia. Coloquei todas as minhas certezas no limbo e questionei-me, mais uma vez, acerca de tudo. Será que sou normal? Demasiado exigente? Que mereço ter alguém na minha vida? Que devia contentar-me com o que a vida me dá? Estar sozinha, de facto, é uma opção. É uma opção porque tenho bem claro o que quero na minha vida e ainda não encontrei. E será que encontrarei, algum dia? Será que encontrarei aquela pessoa que me completará? E se passar a vida inteira à espera?

Continuo a conhecer o mundo sozinha. Continuo a lutar para ser feliz, dia após dia, sozinha. Continuo a degustar comida e a beber um vinho sozinha, num restaurante repleto de famílias e casais. Pensarão as outras pessoas que sou deprimente por estar ali sozinha? Para mim, seria deprimente limitar a minha vida porque não tenho alguém com quem partilhá-la.

Senti-me sozinha no parque, ao jantar e, agora, nesta cama de hotel. Porque há dias assim. Em que, embora rodeada de pessoas, me sinto sozinha. Em que, embora tenha uma vida preenchida, me sinto vazia. Em que, embora tenha muitas pessoas na minha vida, não tenho aquele que me escuta no silêncio.

Porque, caramba, às vezes, também sabia bem ter um abraço, um aconchego, um beijo, uma mensagem de boa noite. Às vezes, sabia bem um amo-te.

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CARINA MAURÍCIO, a fotógrafa
É budista e conservadora-restauradora. É de riso e choro fáceis. Tem tanto de sensível, quanto de corajosa e lutadora. Adora fotografar, jogar ténis e viajar. Viciada em comida, é fã de comida italiana. Gosta de dormir, de café, de chocolate. Dançar? Pode ser a noite toda. Mas também gosta de ficar na ronha, em casa, entre filmes e pipocas. Adora o som da chuva a cair no inverno e o som do mar em dias de verão. Campos floridos enchem-lhe o olhar, assim como as cores das folhas do outono. Apaixona-se facilmente e é uma apaixonada pela vida. Uma geminiana pura.