Há dias assim

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Fotografia © Júlia Domingues | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Júlia Domingues | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Já há algum tempo que partilho da opinião de que sabermos rir de mesmos nós é uma virtude ou, pelo menos, deveria ser uma mais-valia para nos aligeirar os infortúnios que, por vezes, resolvem bater-nos à porta. Se há alturas em que não se passa nada nas nossas vidas, outras há em que parece que acontece tudo ao mesmo tempo. Há dias em que parecemos discípulos exímios das Leis de Murphy, fazendo ecoar, dentro de nós, a máxima: «Qualquer coisa que possa correr mal correrá mesmo mal». Eu não sou excepção. Não é que me considere uma pessoa azarada, mas, por vezes, consigo dar ênfase ao que é ser distraída.

Hoje, sugeriram-me que descrevesse um dia da minha vida. Inicialmente, pensei em fornecer uma folha em branco, tendo em conta que os meus dias não são assim tão intensos ao ponto de manter o interesse das pessoas, além de dois parágrafos. No máximo. Acordo a horas pornográficas, apanho filas de trânsito insuportáveis e trabalho das nove às seis. Podíamos ficar por aqui, na maior parte dos dias. Havia pouco mais a acrescentar. No entanto, quando toca a ser criativa gosto de dar o melhor de mim. Há dias em que tudo acontece. E, se é para acontecer, então que comece logo pela manhã.

Ser criativa é soltar uma asneira quando olhamos para o telemóvel e percebemos que já deveríamos estar levantadas há, pelo menos, 15 minutos. Mandamos o corpo ir à frente, enquanto ficamos a acordar o cérebro. Numa semana de trabalho, as quintas-feiras têm um sabor agridoce que se situa entre o «nunca mais é sexta» e o «coragem, amanhã já é sexta».

E, às sete e meia da manhã, precisa-se sempre de uma dose extra de coragem. Seja para o que for. Preparo, à pressa, um copo de leite, enquanto insisto com o cérebro para acordar. «Coragem, amanhã já é sexta», digo-lhe. Em fracções de segundo apercebo-me que, naquela cozinha, não sou a única com sono. O copo de leite — que há segundos estava cheio — resolve deitar-se, confortavelmente, na bancada da cozinha como quem está pronto para o descanso do guerreiro. Raramente, o ser humano reage de imediato. Há sempre cinco ou dez segundos que ficam reservados à contemplação das asneiras que somos capazes de fazer. E assim foi. Só depois de perceber a dimensão do diluvio é que arregacei as mangas e me meti entre panos, detergentes e água para apagar os vestígios do que acabara de acontecer. «Pelo menos, não me sujei. Podia ter sido pior. Coragem, amanhã já é sexta», tento convencer-me, a todo o custo. Repito a operação. Sorvo o leite em pouco mais de dois golos e sigo para a rua. As filas de trânsito esperam por mim.

A hora de almoço é sempre uma hora aguardada por todos. É a pausa de que precisamos para retemperar energias. Ou, então, é porque já estamos esganados de fome. A quinta- feira tinha começado mal, mas estava a compor-se – pensava eu. Eu pertenço àquele grupo de pessoas que leva marmita para o trabalho. Por todas as razões que podia enunciar, levo-a, essencialmente, porque gosto de saber o que como, porque como melhor e porque não tenho de estar em filas — já me bastam as de trânsito. Nesta quinta-feira, só precisava de uma refeição descansada. Aproximo-me do micro-ondas de marmita em riste e eis senão quando resolvo praticar com a tupperware um flick flack à frente com um mortal emprachado com saída estendida… no chão. E ali estava o meu almoço. Seguiram-se os cinco segundos de contemplação da asneira. A seguir vieram os panos, as esfregonas, o almoço directamente no lixo e o estômago vazio. «Caramba. Pelo menos não me sujei. Podia ser pior. Coragem, amanhã já é sexta», digo para mim, enquanto verifico que continuo sem nódoas.

Ainda me faltava almoçar. Mentalmente, visualizo a pizzaria que existe no prédio. «É mesmo isso: Pizza!», penso, enquanto espero pelo elevador. Dirijo-me ao local, escolho o repasto e aguardo, serenamente, que fique pronto. Recolhido o pedido, sento-me para apreciar, finalmente, a minha refeição. Alcanço uma fatia de pizza ao mesmo tempo que me inclino para a frente para começar a comer. Ainda de boca aberta, sou fustigada por um som estranho. Poc.

— Poc? – Pergunto, franzindo o sobrolho.

Se bem o ouvi, melhor o senti. Instintivamente, olho para o vestido para constatar que um terço do meu almoço estava, agora, no meu regaço. Desta vez, não aguardei pelos cinco segundos de contemplação.

[email protected]! Finalmente, suja.

No fim do dia, tive um convite para ir ao cinema. Declinei. Porquê? Só me ocorria um banho em coca-cola e esfoliante de pipocas.

Há dias assim, em que é preciso mais do que uma dose extra de coragem às sete e meia da manhã. «Coragem, amanhã ainda é sexta.»

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JÚLIA DOMINGUES, a JUX
Tem 38 anos. É solteira e igual a si mesma. Licenciou-se em Direito, sendo Jurista, mas a mais sábia aprendizagem foi aquela que a camaradagem desses tempos trouxe — e que dura, na maioria, até hoje. Tem um refúgio que gosta de pensar que é secreto: Braga, Gerês, a terra dos seus pais. Desde os 25 anos que diz: «Qualquer dia, piro-me de vez para o Norte. Quando for grande.» Mas nunca se pira, apesar de já ser grande. Adora tudo o que seja trabalhos manuais e o desenho é, sim, a sua verdadeira paixão. Tem fobia a andar de avião. E acredita no amor, embora não em coisas especiais. Afinal, não é preciso que ele venha de cavalo branco.