Olho morto: o prisioneiro II

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Ilustração/Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Ilustração/Cartaz © Laura Almeida Azevedo
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Melancólico, acenei para o navio ao fundo do horizonte do mar azulado e brilhante. Brilho este feito pelo sol quente do verão. A areia, as conchas, a água, os peixes… Nada disso é real. Apenas o meu pensamento me acompanhara desde então. Agora, preso entre estas quatro paredes, no cimo de um monte um tanto abandonado, preso entre o nada e o verde, entre os arbustos e os pinheiros…

O medo voltara a apoderar-se de mim. Do meu corpo, que tiritava do frio, enquanto ouço os enormes ramos dos pinheiros chocarem, enquanto o vento sopra de uma maneira cuja semelhança é a de um fantasma… Imagens apoderam-se da minha mente, do meu controlo. O passado voltara para me atormentar. O fantasma, a alma ou o espetro maléfico que me derrotara. Essa presença é-me familiar e a sua vingança não está concluída. Ainda restam mais três pessoas…

Esta é a minha vez.

— Voltei. – Soprou o vento ao meu ouvido num tom grave e frio.

— Esperei por ti. – Respondi com esforço. – Estou pronto para que tomes posse do meu corpo — um repentino silêncio se instalara entre as quatro paredes —, Pedro. – Prossegui, quebrando o silêncio que se tivera instalado.

— Sempre serás o ingénuo Filipe. – A sua presença aparecera diante de mim. O seu rosto ferido e aterrorizador sorria, porém os seus olhos fitavam-me como o olhar de uma coruja. As suas roupas estavam exageradamente molhadas e a sua pele estava pálida e enrugada, causada pelo seu afogamento no alto mar, na festa de Aniversário da Marta. – Por tua causa, morri! – Gritou de súbito. As suas mãos agarraram-se na minha cabeça e a sua boca dirigira-se para a minha bochecha, e em segundos um pedaço de carne estava na sua boca. Mastigou firmemente até engolir o que me tivera arrancado da face, e de seguida, numa rapidez sobrenatural, os seus dedos penetraram-se no meu olho direito, arrancando-o brutalmente.

Já não tinha forças para gritar.

— Agora, pareces-te muito mais comigo. – Troçou Pedro enquanto um sorriso saciado de vingança se formara no seu rosto.

E parti, após litros de sangue terem sido derramados do meu corpo.

E o Pedro desapareceu, por agora.

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CÉSAR DA SILVA, o independente
Gosta de gelados - muitos gelados! Diverte-se com pouco e cansa-se da rotina facilmente. Gosta de rir e, acima de tudo, de escrever. Sente aquilo que escreve e imagina tudo num mundo totalmente diferente, criado na sua própria mente. Tem 22 anos e sempre conquistou a sua independência. Adora boas séries e bons filmes. É viciado em entretenimento. Escreve aquilo que sente e gosta de dar asas à sua criatividade.