O meu nome é Joana

Texto vencedor | Desafio de escrita: «Direto#1»

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Fotografia © Toa Heftiba | Cartaz/Edição © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Toa Heftiba | Cartaz/Edição © Laura Almeida Azevedo

Toda a minha vida tentei ser algo que não sou. Juro que houve uma fase que tentei. Tentei ser o João. O namorado, filho, irmão, colega, bom amigo João. Mas não o era. Nunca o fui. E, após a relação falhada com o meu amor, a Maria, fechei-me a sete chaves. Minha linda e adorada Maria. Queria tanto tê-la nos meus braços e poder chamá-la de minha. Mas o nosso amor era uma etapa que eu não tinha capacidades de ultrapassar. O problema não era ela. Era eu. Este corpo em que não me reconheço, o nojo que tinha que me visse nu, o não saber como agir na intimidade. É como ter ferramentas sem saber trabalhar. E se eu a desejava, a minha linda e fogosa Maria! Perdi-a.

Nojo. É o que sinto de mim. Todos os dias que acordo de manhã e me olho ao espelho. Todos os dias que ligo à minha mãe e ela me chama de «meu querido menino». Todos os dias que, no trabalho, me apertam a mão e me chamam de «homem de trabalho». Todos os dias que se referem a mim como o «senhor João Aveiro» ou o «Doutor». Até as tarefas mais simples, como pentear o cabelo e escolher a roupa, me parecem retiradas da vida de outro alguém. Como se estivesse a tratar da vida de outro alguém que não eu, como se se tratasse de um invólucro que não o meu, até o meu corpo real estar pronto.

Eu não sou ele, o João. Eu sou a Joana.

Já passei por todas as fases pela vida fora. O nojo, a repulsa, a raiva, o medo, o terror, a aceitação e — confesso — a tentativa de auto-mutilação. Muitas vezes dou por mim a experienciar todas estas sensações ao longo das 24 horas do dia. Já quis morrer. Já quis ter força para mudar tudo finalmente. Já perdi toda a gente com medo e vergonha. Não sei como ainda não enlouqueci.

Muitos dias não sei quem sou. Mas em casa, sozinha, sou a Joana. Visto-me como a Joana, maquilho-me como a Joana, cozinho como a Joana e até tenho amigos online como Joana! É a única altura do dia em que consigo respirar sem um colete de forças ou uma mordaça! É quando sou eu!

Já era hora de todos me ficarem a conhecer. Mas a Joana é uma estranha para todos eles. Eles não sabem que a pessoa que têm acarinhado, criado laços e amado, é a Joana. Amam-me sob a minha capa, amam «o rico menino» e tudo o que isso implica. E o meu trabalho? Teria uma carreira como Joana? Os meus colegas ainda me iam dar palmadinhas nas costas após uma venda e dizerem «bom trabalho»?

Certo é que nada disto, tirando a minha mãe, importa. Eu abdicava de tudo para poder ser quem sou e começar de novo. O mundo não é um sitio fácil para pessoas como eu. Ninguém quer saber de pessoas como eu. Somos aberrações. Jamais poderia voltar à terra. Jamais a minha mãe ia poder sair à rua, como se a vida dela tivesse sido suja por mim. «No melhor pano cai a nódoa», ouvi eu tantas vezes dizerem pela aldeia, como se o facto de alguém da família ter tomado uma atitude diferente, como ter um filho, ter um divórcio, fosse uma vergonha nacional.

Sou educada, culta, formada, alegre e tenho boas maneiras e princípios. Sou uma boa cidadã, boa filha e amiga. Tenho em mim todo o amor do mundo.

Pena que só eu me conheça.

O meu nome é Joana.

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ANDREIA FERNANDES, a destemida
27 anos. Sensível, engraçada e sarcástica. Convicta, mas sem fanatismos. Ansiosa e com uma queda para o dramático. Amante de leitura, música, cinema, pessoas de bom coração e mesas bem servidas. Sonha percorrer o mundo, e saber um pouco de tudo, sem nunca ter certezas absolutas de nada. Acredita piamente que a busca pela individualidade é infinita, que o amor se faz chegar de todas as formas e que não há limites para se ser feliz.