Faltam apenas 10 minutos para a meia-noite

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Fotografia © Jay Mantri | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Jay Mantri | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Faltam apenas dez minutos para a meia-noite…

A imagem de Luísa nunca lhe tinha saído da memória. Algo o mantinha naquele rumo. Gonçalo aproximava-se a medo da casa de Luísa. « Mas o que é que lhe vou dizer?», pensava ele. Aos poucos, o sofrimento tinha sossegado, mas… havia sempre um «mas».

No seu íntimo, Luísa esteve sempre presente. Era notório que Luísa tentava em vão entrar no mundo de Gonçalo, aquele mundo tão seu.

— Tu és a pessoa mais solitária que eu conheço, Gonçalo!

— Aprendi a ser assim. – Gonçalo respondeu com aquele sorriso que tanto a irritava. – Aprendi a cuidar dos que amo. Aprendi a cuidar de mim.

Como sempre, Luísa nem teve tempo para esboçar uma palavra. Gonçalo continuou:

— Queria ter tempo para parar o tempo. Queria parar para que o tempo parasse também. Queria também o que também quero. Não sei que força fazer, que caminho seguir, que horizonte olhar. Só queria voltar atrás e seguir, provavelmente, o mesmo caminho, à espera que esse caminho me levasse a ti sem tanto contratempo…

O olhar meigo de Luísa tentava perceber as suas palavras.

— Sabes, queria tanto recuperar alguma coisa. – Batia o pé, nervosa. — Pensei que precisasse de estar noutros lugares, com outras pessoas, mas o meu coração bate mais quando te vejo, quando te ouço, quando penso em ti.

— Abandonaste-me como um carro velho. Sem utilidade. Desgastado. Que queres agora? Cuidar de mim?

— Deixa-me tentar, pelo menos. — Luísa tentou segurar-lhe as mãos sem sucesso.

Gonçalo sorriu. A vontade não era de sorrir, mas foi a única coisa que conseguiu fazer. Sorrir. Um sorriso tão amargo que a barriga de Luísa deu três voltas.

— Como queres que confie em ti? Nem se trata de confiar. Quanto tempo vai durar até que voltes a enviar o meu coração para abate? E eu, aqui, não consigo parar de sangrar.

Queria tanto gritar com ela e nem isso conseguia. Queria dizer-lhe o quanto sofreu, o quanto é assim por causa dela, o quanto o seu coração está cansado, o quanto só queria ouvir da boca dela: «Desculpa». «Era agora que me pedias desculpa», pensava ele. «Era agora que corrias para mim e me abraçavas como se ontem apenas tivéssemos desejado boa noite um ao outro.» O olhar de Gonçalo era triste. Nele parecia estar escrito: «Fica bem. Tu é que sabes da tua vida. Se é assim que queres.» Mas lembrar-se de tudo isto fê-lo sentir uma raiva a crescer dentro de si. Teve vontade de dizer a Luísa tudo o que não tinha dito até então.

Foi nesse momento que se lembrou das palavras de Victor Hugo: «As palavras têm a leveza do vento e a força da tempestade. Nunca pronuncies as palavras que a raiva põe na tua boca.» Parado à porta de casa de Luísa, foi como se um anjo o impedisse de dizer o que tinha lá dentro. A chuva tinha-lhe molhado o rosto e nem tinha notado. Ainda com o braço estendido a escassos centímetros da porta de Luísa, voltou para trás.

Estava ainda no mesmo lugar. Faltam apenas dez minutos para a meia-noite…

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NUNO CORREIA, o desportista
Tem 36 anos. Nasceu em Coimbra. É um apaixonado pelo desporto e pelo ar livre. Descobriu o gosto pela escrita no dia em que deixou de acreditar no amor... Ou, aqui entre nós, talvez não.