Até que a morte [não] os separe

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Fotografia © Scott Webb | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Scott Webb | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Ela, um altar e uma multidão de gente à sua frente. A marcha nupcial. Tocam os primeiros acordes. Era essa a sua deixa. Caminha vagarosa, mas segura, absorvendo toda a emoção que a inunda neste dia. O dia da celebração do seu amor por aquele homem maravilhoso, sensível, mas confiante, sereno, mas dinâmico, ouvinte e bem falante, teimoso e impulsivo, que tanto, mas tanto admira e adora.

São ambos artistas. Ela escritora e ele compositor e cantor. Desde que se conheceram, viram um no outro o seu reflexo, uma cumplicidade inigualável até então e, mesmo nos defeitos um do outro, eles se encontravam e se compreendiam. Sem nunca negligenciarem as suas profissões, os seus amigos e família, viviam muito um para o outro. Ele era desligado da família, devido à sua profissão talvez. E ela já perdera aqueles que eram o seu pilar maior, os seus pais, num acidente de viação. Por milagre não morreu também nesse acidente, agravando-se, desde então, o seu estado de saúde, já de si frágil. Nasceu com um problema cardíaco congénito que, a qualquer momento e sem aviso, lhe pode parar o coração. Ele esteve sempre presente, naquele hospital e na sua recuperação, resgatando-a daquela dor, daquele lugar frio e escuro da sua alma, devolvendo-lhe a alegria de viver. E, se hoje está viva, é graças a ele e aos seus dois melhores amigos de infância, Tiago, o padre que a vai casar, e o Vicente, o tatuador, em tudo diferente dela, mas em comum o sentimento fraterno e protetor que nutrem um pelo outro.

A cada passo, pensa nisto e olha em seu redor, para as caras espantadas dos convidados. Todos se questionavam: «Não é suposto o noivo entrar primeiro? Onde está ele? E ela caminha sozinha para o altar?» Sorri, tímida, mas divertida. De facto, não são um casal nada convencional. Caminha sozinha, porque é «ela» que se entrega àquele homem de corpo e alma, num juramento solene, «até que a morte os separe». Ele, extremamente pontual, contrastando com a natureza dela, numa das muitas vezes que esperou por ela, dissera-lhe em tom de brincadeira: «No nosso casamento serás tu a esperar por mim!» E é por isso que ela, hoje, entra primeiro na igreja. Até as suas alianças são diferentes: o símbolo do infinito tatuado nos seus dedos.

Chega, finalmente, ao altar. Tiago pisca-lhe o olho. O senhor Padre Tiago no seu habitual ar descontraído. E os minutos passam. E meia hora já lá vai. O tique-taque do seu coração começa a dar sinais de alarme. As pessoas começam a olhá-la, inquietas e apreensivas. «Caramba, Alexandre, porque demoras? Já deu para perceber o quão angustiante é a espera. Prometo que nunca mais chego atrasada.» Pensa ela, ansiosa.

Ali está, prostrada, de costas para o altar, de frente para a multidão, sentindo-se completamente só. Abandonada. Questionando-se sobre o que poderia ter acontecido, pois ainda horas antes ele lhe tinha dito o quanto a amava e o quanto aquele dia seria um marco nas suas vidas. Sente um frio no estômago, um aperto no coração e agarra com força o ramo que tem na mão. Procura serenidade no olhar do Vicente, sentado na primeira fila, e a descontração no do Tiago ao seu lado. Desvia o olhar para o seu vestido branco, justo ao corpo, com pérolas e apontamentos de renda, que termina em vasé e se prolonga por uma longa cauda. Sente-se balançar.

Alguém irrompe pela porta e grita: «Inês, vem rápido! Houve um acidente. O Alexandre foi atropelado, está muito mal e precisa de te ver, antes que seja tarde demais.» O seu mundo desabou ali. O tempo em slow motion. Abriu as mãos e deixa cair as flores. Acompanhou, com o olhar, todo o seu trajeto até se estatelarem no chão e se despedaçarem, assim como a sua vida se despedaçava ali. Viu pérolas a rolar, as pétalas a rasgar, os seus sonhos a dilacerar. Frágil e trémula, deixa-se cair. Tiago ampara-a e Vicente pega-a ao colo, levando-a, num momento que lhe pareceu um instante, até ao seu Alexandre.

As suas mãos tocam-se, e ela beija-lhe o rosto ensanguentado. Ele pede-lhe desculpa e chora. Alexandre tem momentos de lucidez em que ela percebe o que ele diz e outros que não. Os médicos tentam recuperá-lo, mas em vão. Ela diz-lhe, soluçando, o quanto o ama e que não quer viver sem ele, enquanto vê, frustrada e inconformada, a vida a esvanecer-se no seu olhar. Deita-se de lado, junto a ele, nesse chão frio, duro, tingido de vermelho como agora também o seu vestido, e olha-o, em silêncio, num silêncio que tudo diz. Ouve o seu último suspiro e profere um «até já».

Ouve, agora, o seu próprio coração cada vez a bater mais lento, e aperta-lhe a mão já sem vida, até que os símbolos do infinito nos seus dedos se toquem. E fecha os olhos, fecha as cortinas da sua vida.

O seu coração sucumbiu. Parou. Juntos — até que a vida ou a morte os [não] separou.

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SÍLVIA SANTOS, a menina-mulher
Diz, por brincadeira, que é a Sílvia e a Aivlis — o seu nome escrito de trás para a frente. Porquê? Porque é de opostos. Voa e rasteja. Ri e chora. Reflete e descontrai. Uma menina-mulher, das que não sabem que sabem e que pensam que não sabem, mas sabem. Forte, mas resistente. Insegura, mas persistente. Com sede de viver, de sentir, de experimentar coisas novas: tanto pratica artes marciais, como salta em queda livre no meio das palavras. O que a sufoca? A monotonia. Anda constantemente em busca de novos desafios — e foi assim que veio aqui parar.