Mr. President

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Fotografia © Wil Stewart | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Wil Stewart | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Tinha saído da casa do último cliente, com a naturalidade de quem sai de um café, ou de um centro comercial. Com ele era tudo tão diferente. Sabia que naquele par de horas ele era seu. Depois, voltava a ser ela, sozinha. Porque tinha de ser assim. Mas ele era tão diferente, tão tudo o que tinha sonhado para si.

Tinha de ser. Tinha de se desapegar. E este não era um cliente normal. Tinha de se desprender, como de todas as vezes. Já estava habituada. Era uma coisa que já sabia fazer em piloto automático, quase como quando vamos de carro do ponto A ao ponto B sem saber como conduzimos até lá. Mas ele era diferente.

Ficou com o dinheiro extra que ele lhe tinha dado para o táxi, mas decidiu que queria ir a pé. Afinal, eram apenas alguns quarteirões e os saltos já nem lhe faziam doer os pés. Não mais do que o resto do corpo pelo menos. A meio caminho, viu um vulto entre duas esquinas de dois edifícios. Com a curiosidade de quem tem pouco a perder, ignorou o arrepio que sentiu corpo abaixo e espreitou para a ruela escura. Viu dois vultos a remexer numa lata de lixo. Esteve a observar dois minutos antes de darem por ela.

Quando se apercebeu que tinha sido vista já era demasiado tarde. A ruela, além de escura, era ladeada por muros mal cuidados, donde se viam paredes de tijolo antigo, e falhas no cimento onde jaziam beatas de cigarro ressequidas. Olhou para eles, e olhou, finalmente, para a lata de lixo remexida. Estes não eram sem abrigo, e muito menos tinham aspeto de quem remexe latas de lixo. Eram até extremamente bem parecidos, bem vestidos e pessoas de alguma classe. Mas algo se passava naquele olhar, algo mau.

— Não são boas pessoas. — Pensou.

Deitou os olhos à lata de lixo novamente e, surpreendentemente, não era de lixo que se tratava. Foi com as mãos à boca, sentiu o coração a querer saltar pela boca e os seus olhos foram à procura de uma saída. Subitamente, os homens bem parecidos já não eram nada mais que sombras velozes. A maldade contorcia-lhes o rosto. Quase pareciam bestas.

— Demasiado tarde, princesinha! Não te chegou a aventura com o senhor presidente? Quem te manda ser curiosa? É a terceira vez esta semana. Para prostituta, andas muito dedicada a um só fiel cliente. — Pegou-lhe na cara e olhou-a nos olhos. — O que acabaste de ver é o negociozinho paralelo do teu querido. O que achas?

Sentiu as lágrimas correrem-lhe cara abaixo. Não sabia se de medo, de dor, ou do que tinha acabado de ouvir. Sentiu a cabeça a doer. Tinham-na empurrado contra uma pilha de bidons de lata. No entanto, não conseguiu parar de fitar a lata de lixo. Teve nojo. Sentiu a cabeça latejar. Vomitou ao mesmo tempo que lhe torciam o braço por trás das costas, a voltavam contra uma das paredes do beco e sentia o fecho do vestido a ser desapertado.

— Parece que vamos ter de saber o que o senhor presidente anda a comer nas horas vagas, já que nos manda a sempre esperar horas neste pardieiro, por tua causa. — Sentiu-o sorrir e arfar na sua nuca.

Não tentou sair dali. Eles eram dois e, pelo aspeto da lata de lixo, não ia sair dali inteira.
Não gritou. Não gemeu sequer. Limitou-se a olhar para uma das falhas entre tijolos, onde uma beata, ainda acesa, luzia. Ficou ali, a ver queimar lentamente o cigarro, a ver as ondas de calor na ponta ainda em brasa. Não sabe quanto tempo ficou ali. Só sabe que a beata já não luzia e há muito que tinha deixado de sentir.

Espancaram-na após se terem satisfeito com ela. E, entre a consciência e a ilusão, entre não saber o seu nome e querer adormecer para sempre, lembrou-se da ultima discussão que tivera com a sua mãe, da última frase:

— Nunca vou poder andar contigo na rua! Vens falar de dinheiro? Dinheiro nenhum paga a dignidade minha filha. Nenhum. Nem liberdade. Ou achas que vais ser muito livre e libertina? Ter família? Vou dar-te uma novidade: as putas não se apaixonam!

E apagou.

Tinham passado seis meses desde que tinha acordado sozinha, despida e suja no beco.
Nem a lata, nem os bidons estavam no mesmo sitio.

Rastejou até à esquadra mais próxima. Fizeram-se queixas e perecias. Se ao longo de duas semanas o caso foi estudado, nas semanas seguintes foi completamente esquecido. Não disse nunca o nome dele. Sentia-se perseguida. Fugiu da cidade. E teve pesadelos todas as noites desde então.

Ele nunca mais ligou.

Nunca mais o viu, sem ser em comunicados na televisão, ou aparições públicas, de mão dada e a sorrir com a mulher.

É. As putas não se apaixonam.

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ANDREIA FERNANDES, a destemida
27 anos. Sensível, engraçada e sarcástica. Convicta, mas sem fanatismos. Ansiosa e com uma queda para o dramático. Amante de leitura, música, cinema, pessoas de bom coração e mesas bem servidas. Sonha percorrer o mundo, e saber um pouco de tudo, sem nunca ter certezas absolutas de nada. Acredita piamente que a busca pela individualidade é infinita, que o amor se faz chegar de todas as formas e que não há limites para se ser feliz.