Sinto que perdi o amor e a dignidade por mim

4362
Fotografia © Alexandru Zdrobau | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Alexandru Zdrobau | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Domingo de um mês de novembro, igual a tantos outros, independentemente do mês e ano. Mais uma manhã em que acordo sozinha neste meu quarto, que me consome os dias. É neste quarto que, há mais de um ano, passo os dias e as noites. Este meu quarto passou a ser a única divisão da casa, onde um dia foi um lar, onde tento sobreviver. Neste meu quarto é onde faço as minhas refeições, onde vejo a televisão, onde passo algum do tempo com os meus filhos.

Fizeram-me prisioneira? Não! A prisão na qual me encontro é somente culpa minha. Fiquei sem coragem e sem a determinação que tanto, um dia, me caracterizou. Penso que isto ainda me possa levar à loucura. Questiono-me: «Passou já tanto tempo e fui sobrevivendo. Será que sou capaz de viver assim?»

Há momentos de comodismo extremo. Não somos felizes, mas encolhemos os ombros e imaginamos que, por milagre, tudo se irá resolver sozinho. A quem eu quero enganar? Aos que me rodeiam? A mim própria? Talvez! Faço-o, porque é mais fácil sobreviver, levando os dias conforme se aguenta, do que estar a levantar um furacão à minha volta.

Os furacões passam. Mais tarde ou mais cedo, tudo acalma! Mas levar os dias a enganar-me, aguentar o já insuportável, a agoniar-me, à espera da vida feliz, isso, sim, é difícil. Faz morrer, por dentro, aos poucos e não vai passar como o furacão, mas, sim, piorar.

Sinto que perdi o amor e a dignidade por mim. Tenho plena consciência do quanto sou cruel comigo. E, mesmo sabendo disso, ainda aqui estou sem tomar uma atitude digna, sem me erguer, sem me valorizar.

Não me reconheço. Não sei quem sou e o que ainda serei. São vagas as memórias daquilo que já fui. Mas sei aquilo que quero, sei as decisões que devo tomar para tudo mudar. Sei que vou provocar um furacão, mas depois passa e fica tudo calmo. E, finalmente, irei certamente encontrar-me, saber quem sou.

Quando tomo uma decisão e tenho a certeza de que ela será melhor opção do que aquela que agora vivo, então sigo em frente e não há nada que me mova para que volte atrás. E, aí, sim, eu não sou cobarde. Não! Tomando a decisão, não há volta atrás.

É esta a postura a ter para encarar as nossas decisões. Sermos determinados e confiantes naquilo que realmente queremos. Não ficarmos com duvidas. Temos de crescer interiormente. E, se é ali que iremos ser felizes, então força! Para quê pensar nos “ses”, nos “mas”. Assim, não vamos a lado nenhum.

Quero uma vida com vida!

Não quero viver esta vida sem vida!

Comments

comments

PARTILHAR
Artigo anteriorSer e ter uma irmã
Próximo artigoMr. President
MATILDE GOMES, a emotiva
É sonhadora — tanto que, desde há muito, tem uma lista de sonhos a realizar — e é a viajar que quer iniciar a sua aventura pela vida. Apaixonada pela leitura, é na escrita onde se sente livre, tendo sempre presente o amor e a dor. O seu interior é um turbilhão de emoções, onde reside as lágrimas e os sorrisos. Para a Matilde, o abraço é o gesto que melhor revela os sentimentos.