Depois do antes

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Fotografia © Flo Karr | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Flo Karr | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Nunca fico muito entusiasmada com as histórias do «antes e depois» que as redes sociais insistem em mostrar-nos, todos os dias, acopladas de uma quantidade de colagens de fotos, onde ficamos uma série de segundos boquiabertos, a tentar perceber se se trata da mesma pessoa. Não é que desacredite no que as pessoas vão partilhando – como, aliás, vão poder atestar mais à frente –, mas sou da opinião de que cada um tem o seu próprio caminho e o que pode ser ótimo para mim pode não o ser para outros. Cada um tem as suas próprias fragilidades, os seus pontos fracos e uma forma muito própria de se agarrar à esperança, que insiste em não se fazer ver. Há um timing próprio. Há milhares de razões para que as coisas façam sentido nesta altura e não naquela. Eu não sou diferente. Mas, actualmente, estou diferente. Estou diferente muito à conta de ter encontrado o meu timing, o meu caminho; de ter encontrado a forma das coisas começarem a fazer-me sentido.

Faz hoje, precisamente, um ano em que eu era antes. Era alguém que deixava os dias passarem e, se pudesse esconder-me atrás deles, tanto melhor. Era alguém que tinha a lucidez de perceber que assim não podia continuar, mas o «agora é que é» teimava em nunca mais chegar. Era alguém que, a cada dia que passava, via uma oportunidade em se afundar mais. Quando andamos de braço dado com o desânimo costumam aparecer, de rompante, o desleixo e a baixa auto-estima. Era com essa gente que eu me fazia acompanhar há dois anos a esta parte. A certeza de que ninguém me ia olhar para a alma – que eu fazia questão em esconder – fez com que eu deixasse de olhar para o corpo. E, quando assim é, tudo é permitido, mas ao contrário. Desconfio até que há uma altura em que retiramos um certo prazer de vingarmo-nos de nós. Em nós. «Estamos gordos? Não faz mal. Se alguém tiver de gostar de mim vai gostar tal e qual como eu sou.» Repetimo-nos isto a cada dia que deixamos passar por nós. Não é que esta frase não esteja ferida de verdade, porque está. No entanto, ela só tem força para funcionar se, antes de gostares dos outros, gostares de ti. Se assim for, meus amigos, não há gordos ou magros, baixos ou altos, brancos ou encarnados que alterarem isso. Comportamento gera comportamento e o sorriso que ofereces, todos os dias, ao universo ele devolve-to na mesma proporção. O problema reside, precisamente, quando fingimos – mais para nós do que para os outros – que somos felizes assim, não gostando de nós. Não somos. Somos felizes com a família que sabemos que nos acompanhará sempre, independentemente do teu estado físico e emocional, e somos felizes com as pessoas que não nos viram as costas e que nos sabem olhar além dum corpo. Somos felizes por fora e para fora, mas não somos felizes por dentro.

E, assim como a seguir à tempestade vem a bonança, a seguir ao tormento vem o sossego. Foi há, precisamente, um ano que resolvi enfrentar o Adamastor que se fazia sentir em mim e, de mangas arregaçadas, comecei a remar com todas as minhas forças. Se é fácil? Claro que não. Mas há alguém, porventura, que conheça alguma luta que seja fácil? Se fosse, não se chamaria luta. Há, precisamente, um ano quis tratar do corpo. Foi nesse mesmo dia que peguei na bicicleta, pus uns phones nos ouvidos e comecei esta viagem. No dia a seguir – espantem-se – fiz o mesmo. E, no dia após esse, voltei a fazê-lo. Se o recomendado era praticar exercício físico, pelo menos, três vezes por semana, eu não me permitia praticar menos do que quatro dias por semana. A arfar? Com certeza que sim. A dizer sete asneiras no meio de cinco palavras – que ia vomitando a cada pedalada que dava –  e que me faziam ter a certeza de que já não aguentava mais. Mas aguentei sempre mais um minuto. Cada dia superado era sinónimo de um dia a menos de luta e um dia a mais de conquista. A cada convite para jantar fora – sim, é possível continuar jantar fora – reajustava a carne pelo peixe, a massa pela salada e a sobremesa, bem, a sobremesa continuava na montra dos doces. Nos dias em que só me apetecia chegar a casa, após um dia de trabalho, e fundir-me com o sofá, nesses dias, obrigava-me a ir andar de bicicleta mais do que nunca. Começava sempre sem vontade e terminava com um «ainda bem que vim». Quando chovia a potes e o clima convidava ao aconchego do lar, eu ficava em casa, mas a pedalar na mesma. Fiz de casa a rua, fiz do sacrifício um prazer e fiz do esforço um sorriso. Havia dias bons, mas também havia dias em que achava que aquilo tudo não valia a pena. Sabem o que fazia nesses dias? Ia pedalar com tanto vigor que, quando terminava, pensava: «Hoje, mais do que nunca, tornaste o amanhã mais perto». Os meses foram passando e, devagarinho, fui começando a ser eu a passar pelos dias e não o contrário.

Quis tratar do corpo e, sem dar conta, acabei por tratar da alma. Essa foi a minha maior luta. O meu maior feito. A minha verdadeira conquista. Quando começas a gostar de ti, não significa que deixas, automaticamente, de ter medos; não significa que os receios deixam de fazer parte de ti ou que passes, milagrosamente, a sentires-te uma super mulher. Não. Até porque continuares a ter medos faz com que continues a balizar entre o que é sensato e o que é exagero. Preservo, pois, em mim, os mesmos receios – que continuam, muitos deles, a serem disparatados –, mas a diferença é que já não são eles que dominam o meu dia. E, se para continuar a tratar da alma, for necessário continuar a tratar do corpo, assim o farei. Tal e qual como fiz ontem, a seguir ao trabalho, como faço intenções de fazer hoje e como com certeza farei amanhã.

Há, precisamente, um ano eu era antes. Hoje sou depois. De corpo e alma. E, se esta história trouxesse acoplada uma quantidade de colagens de fotos, posso garantir que ficariam uma série de segundos, boquiabertos, a tentar perceber se se tratava da mesma pessoa.

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JÚLIA DOMINGUES, a JUX
Tem 38 anos. É solteira e igual a si mesma. Licenciou-se em Direito, sendo Jurista, mas a mais sábia aprendizagem foi aquela que a camaradagem desses tempos trouxe — e que dura, na maioria, até hoje. Tem um refúgio que gosta de pensar que é secreto: Braga, Gerês, a terra dos seus pais. Desde os 25 anos que diz: «Qualquer dia, piro-me de vez para o Norte. Quando for grande.» Mas nunca se pira, apesar de já ser grande. Adora tudo o que seja trabalhos manuais e o desenho é, sim, a sua verdadeira paixão. Tem fobia a andar de avião. E acredita no amor, embora não em coisas especiais. Afinal, não é preciso que ele venha de cavalo branco.