O peso dos dias

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Fotografia © Bench Accounting | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Bench Accounting | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

São sete horas.

São sete e um quarto.

São sete e meia.

É segunda-feira. Já é o terceiro alarme que toca. Sim, hoje em dia são três alarmes definidos no telemóvel. E mais um. O do rádio despertador, velho companheiro de guerra desde os tempos de faculdade, que me acorda com as notícias da manhã.

A noite de domingo para segunda é sempre a pior dormida da semana. Vai-se lá saber porquê, não é? Já há uma resistência a este dia, inconsciente e automática, que comanda o meu corpo.

Antes, bastavam-me dois alarmes. Acordava com tempo para tudo, para aí uma hora e meia antes de sair. Saía de casa a tempo e horas. A louça do pequeno-almoço ficava lavada. A cama feita. Hoje, não.

Antes, o futuro não era rosa, mas tinha vontade. De aprender. De crescer. Foi este o trabalho que me saiu na rifa. Mais valia fazer por valer a pena. Só que não. O esforço, com os anos, revelou-se vão. E a vontade desvaneceu.

Perco dias de uma vida, que é apenas uma, num trabalho que não me assegura futuro algum. Só o presente. Que é mais do que muitos, eu sei. Também conheço o outro lado. Não o desejo a ninguém e peço tanto para nunca mais lá voltar. Mas este lado também consome, também mata. Não à fome, mas mata. Aos poucos. Mata o ânimo. Atira-nos à parede. Arrasta-nos pelo chão.

Vivo em conflito comigo, pois o que faço é contra a minha natureza e isso está a obrigar-me a sonegar o meu eu. A pô-lo a um canto. Olho para mim, ali jogada, e digo-lhe que espere pelo dia em que possa ser na plenitude.

Este peso dos dias está a levar-me ao fundo. A menina atinada e dedicada, organizada e disciplinada, está a perder-se. Tenta remar contra a maré, mas já não tem forças. Está a baixar os braços e a deixar levar-se pela corrente. E isso reflete-se em tudo. Alastra como um vírus que tenta atacar o que de saudável resta. Está a levar o melhor de mim.

Procrastinar tornou-se o meu verbo. Estou em fuga constante de uma escuridão que não quero de volta. Somam-se as horas que passo a olhar para o vazio, mergulhada algures num recanto da minha mente mais reconfortante do que a realidade. Procuro refúgio num lugar onde estas garras, que me puxam para o fundo, não me alcancem.

Focar-me em algo, que nada me diz, tornou-se um esforço sobre-humano. Invejo  aquelas pessoas que conseguem ligar o piloto automático e fazem o que têm a fazer, mesmo que contrariadas. Mas não vim com esse botão.

Tento contrariar este lado negro da balança, mas o que quer que tente colocar no outro prato não é suficiente para equilibrá-la, porque, aqui, tudo é efémero, enquanto do outro lado tudo persiste.

São dezanove e trinta.

Vou a caminho da paragem do autocarro, a apanhar com o frio da noite. O regresso a casa é sempre um alívio, mas o trabalho vai atrás muitas vezes, de uma forma ou de outra. Mas é um peso que já não consigo carregar.

Vejo-me a lutar todos os dias por aquilo que não quero para poder sobreviver, mas estou a perder muito, mas muito mais do que estou a ganhar.

A tensão verga-me as costas e acrescenta-me quilos ao corpo. Literalmente. A revolta consome-me as energias e leva-me o ânimo de fazer até o que gosto.

Antes, roubava horas ao sono para me dedicar a algo que de nada me serviu. Hoje, ainda tento, mas já não consigo. Perco o tempo na mesma, mas já não sai nada de jeito. Tempo precioso. Como se não bastasse, a estas horas acrescento outras para fazer de noite o que ainda me dá algum gozo e que não posso fazer dia. Porque preciso disso para me manter à tona. Mas até isso tem o seu preço.

Estou aqui, a escrever e a olhar para as horas, de consciência pesada, porque tenho tanto trabalho atrasado que deveria estar a despachar. Mas fico doente só de pensar em pegar naquilo. Para quê, se ao primeiro passo em falso o teu valor passado deixa de ter valor no presente? Para quê, se daqui a um ano, se calhar, este trabalho já nem existe?

Já não me reconheço em tanto do que me tornei. Tenho saudades de mim. Só queria encontrar-me, novamente, para poder dar o melhor de mim, a mim e àqueles que realmente o merecem e apreciam.

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ANA PEREIRA, a inquieta
Nasceu numa noite estival, mas tem alma outonal. Convive com os números, mas encontra refúgio nas palavras. Aparenta serenidade, mas governa-a uma mente deveras inquieta. Se lhe perguntarem, é assim que se define a si própria. Aliás, estas foram palavras dela.