O «não» não dito

1914
Fotografia © Sweet Ice Cream Photography | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Sweet Ice Cream Photography | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

O olhar. Foi o olhar que nos venceu. E desde esse dia que não conseguimos ser os mesmos sozinhos. E quem diria que seria ali, com tantas pessoas, com partidas e chegadas, que se iria dar aquele cruzamento de olhares arrebatadores. Sim, num aeroporto.

Tu, de mala de rodas, jornal «A Bola» na mão, um casaco quente pendurado no braço, jeans Levi’s, e mais a minha memória não me permite relembrar. Mas era assim que estavas e que eu te vi num primeiro impacto. Na dita primeira vez.

E então sentei-me a aguardar a hora exata do meu voo. E tu, bastante ágil, soubeste chegar a mim com um: «Aposto que sei o motivo de estar aqui hoje.» Breves segundos depois, eu respondo: «Sou das que ganha apostas!»

E, assim, com ar matreiro de ambos, surge o primeiro sorriso fácil de memorizar. Com o pouco tempo que nos restava, cronometrado ao segundo, fomos interrompidos pelo aviso de partida do meu voo. Triste, notei nos teus lábios, deste-me o teu número num pedaço do jornal que ainda nem tinhas lido.

Meses depois, tendo eu sido capaz de te devolver a chamada, quando regressei às minhas origens, marcámos o primeiro dos muitos programas que acabámos por fazer. Juntos!

Aventura. Cultura. Conhecimento. Limite. Amor. Protetor. Algumas palavras que tínhamos em comum. Que achava eu serem suficientes para o que se seguia. Mas… há sempre algo mais! Sem precipitações.

Chegou o dia em que achaste por bem surpreender-me, de novo. No entanto, esta surpresa seria diferente, pensada ao pormenor. Dizias tu. Fim de semana planeado, como outro qualquer. Mais uma aventura no meio de tantas já vividas. Marcas, assim, um restaurante, italiano, o meu preferido, e juntamente com o meu prato chega o anel. Esperei. Parei. Gelei. Respirei vezes sem conta. E abri.

Eras tu a mostrar que me querias para tua mulher. Já era, dizia eu. Mas tu — tu, sim— querias casar. Eu sempre achei o casamento um aditivo ao querer estar junto. Ao amar incondicionalmente. Ao ser feliz ao lado de alguém. Facilmente dispensado por mim. Mas por ti, em lágrimas, aceitei.

E, inevitavelmente, tendo em conta as circunstâncias, surge o planeamento do casamento. Os convites. As flores. A comida. O local da cerimónia (mais que decidido, foi sempre a praia para os dois). Embora tambem tivéssemos pensado no aeroporto por breves segundo. Lua de mel. Vida a dois, com aliança.

Concordámos que o faríamos em conjunto. Mas, por algum motivo, senti o teu descuido. O teu «decide tu, tens mais jeito». Que me doeu, confesso, mas nunca te disse. Problemas no trabalho, dizias. Nervosismo pelo casamento estar próximo, diziam-me. E a verdade? A verdade é que algo não estava bem. Mas nós, mulheres, preferimos não dar importância ao que os olhos vêem, tão-pouco ao que o coração sente.

Sem fugir às mil conversas que têm de acontecer. No entanto, mil aventuras adiadas pelo meio. Poupança de dinheiro para o dito dia. Despedidas de solteiro(a). Ressacas. Últimos pensamentos de solteira. E, por fim, o casamento.

No casamento: Nervos. Estômago embrulhado. Roupa previamente escolhida. Dia totalmente planeado. Família, amigos. Fotos, muitas fotos. Vídeos.

O dia chegou. E, quando dermos por nós, já terá terminado. «Estarias tu preparado para ele?» Perguntei-me. E avancei até ao sítio definido. Hora marcada. Data escolhida. Atrasada como manda a tradição. No entanto, rapidamente percebi que alguém se tinha atrasado mais do eu.

Silêncio. Coração palpitante. Estômago cada vez mais embrulhado. Percebi. Ninguém me disse. Não foi preciso. Fui a única que se lembrara. Ou talvez a única que não se esqueceu. Esperei, em silêncio. Mas tu não apareceste. E nada disseste. Porquê? Talvez, um dia, eu saiba a resposta!

Até lá, fica a memória. Fica o ponto de interrogação. Fica a certeza do incerto. Fica a dúvida do que realmente se passou. Porque a verdade é que só eu apareci. Naquele dia.

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ANDREIA DE CASTRO, a princesa
Se fosse o seu pai, dir-nos-ia: «A Andreia é uma princesa... Só ainda não sabe que o é.» E, para ele, isto definiria tudo. Porque a Andreia é amor. Amor pelos outros, mas não tanto por ela própria. Porque a Andreia é família: vive para e por eles. Porque a Andreia é o sorriso, a lágrima, o vento, o sol, o silêncio, o mar e o céu sem limite. E, além de tudo disto, a Andreia é ainda solitária, viajada, artista, insegura, auto crítica, beijoqueira. É a princesa que o pai sempre quis ter. E que, até ao parto, esperavam que fosse um menino... Mas a Andreia, porque também é sentido de humor, enganou tudo e todos. E não se limitou a nascer menina. Nasceu princesa.