Votar/Decidir sim ou não?

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Fotografia © Freestocks.Org | Cartaz @ Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Freestocks.Org | Cartaz @ Laura Almeida Azevedo

Inês ia de viagem, de comboio, visitar a sua avó que vivia no Norte.

Ia atenta à conversa de duas senhoras, já de certa idade, acerca do referendo à despenalização do aborto, que se ia realizar no fim de semana seguinte.

Uma dizia: «O que Deus nosso senhor criou é sagrado. Sou totalmente contra». A outra respondia: «Mas olha lá, mulher, se fosse permitido, aquela miúda lá da terra com 14 anos, que teve agora um gaiato, não teria destruído a sua vida. Agora o que vai ser dela com um filho nos braços?»

Os pensamentos de Inês viajaram para longe. Deixou de as ouvir. Começou a refletir sobre a sua vida.

Ela não teve de escolher entre tirar a vida a um feto ou ser mãe e pai de uma criança. Criança que iria recordá-la para sempre da cobardia do grande amor da sua vida. Inês tivera um aborto espontâneo. Até àquela data, caso a gravidez se tivesse concretizado com o bebé saudável, e não sendo resultado de uma violação, a Inês teria de ter o filho.

Então, ela estava decidida, ia votar sim. Se a gravidez dela se tivesse concretizado, ela gostaria de ter tido opção de escolha. Por mais difícil que fosse essa decisão. Independentemente de todas as questões éticas que este assunto levanta, cada mulher deve ser livre de escolher a sua própria vida. Porque a felicidade de cada pessoa depende de si e das suas escolhas.

Quando sofreu o aborto, ela nem sabia que estava grávida. Por isso, nunca chegou a criar uma ligação com esse ser. Mas levantaram-se várias questões e se’s na sua vida. Não tinha sido planeado, mas ela amava de verdade aquele homem. Após tanto tempo de sofrimento e dúvida, Inês sentia-se grata. Grata por não ter tido a responsabilidade da decisão. Qualquer que fosse, sim ou não, ia causar mazelas e acarretar consequências.

Mas ela nem teve opção de escolha, a vida encarregou-se de o fazer por ela. Então, Inês pensou: A vida dá-me exatamente aquilo de que preciso para fazer a viagem da minha vida. Independentemente do quanto me faça sofrer, se me aconteceu é porque consigo ultrapassar. E, mesmo que no presente não o consiga ver, no futuro irei compreender.

E foi assim que, com o seu coração em paz, continuou a sua viagem em silêncio.

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CARINA MAURÍCIO, a fotógrafa
É budista e conservadora-restauradora. É de riso e choro fáceis. Tem tanto de sensível, quanto de corajosa e lutadora. Adora fotografar, jogar ténis e viajar. Viciada em comida, é fã de comida italiana. Gosta de dormir, de café, de chocolate. Dançar? Pode ser a noite toda. Mas também gosta de ficar na ronha, em casa, entre filmes e pipocas. Adora o som da chuva a cair no inverno e o som do mar em dias de verão. Campos floridos enchem-lhe o olhar, assim como as cores das folhas do outono. Apaixona-se facilmente e é uma apaixonada pela vida. Uma geminiana pura.