Como sabes, parti

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Fotografia © Erol Ahmed | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Erol Ahmed | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Dia 25 de fevereiro de 2016

Olá, caderno,

mais uma vez…

Já me conheces um pouco e sabes que não gosto de despedidas, de demonstrar os meus sentimentos. Não gosto de ver lágrimas a jorrarem por minha causa. Mesmo de felicidade – não sei reagir! Não sou uma pessoa fria. Apenas uso a minha defesa agressiva para não me verem os olhos esbugalhados e vermelhos.

Como sabes, parti.

Antes de ontem foi o meu último dia a viver no meu país, Portugal. Desde muito novo que tinha o sonho de viver em Inglaterra – não sei porquê, mas algo sempre me atraiu naquele país. Desde os meus 13 anos de idade que sonhava em ir viver para as «terras da Majestade» e, claro, ontem, fui divertir-me com os meus amigos. Eu sabia que iria ser a última vez, durante algum tempo, e eu estou tão habituado a vê-los, todos os dias, no café. Vais mais um café, mais um cigarro, mais um whisky-cola. E lá me via eu atordoado, a rir-me como um pateta – como um tolo! Claro que os meus amigos se riam comigo (muitas vezes, do meu riso) e ouvem-me falar alto, ou não, já que não sou o único.

Confesso que estes passados meses me tenho divertido mesmo muito e que me vão marcar. Tive os meus amigos verdadeiros ao meu lado a apoiarem-me em tudo. Estou apaixonado por eles. Sim, apaixonado, porque a amizade também é como uma paixão. Eles são-me tudo e sou capaz de os colocar acima de tudo só para os ver felizes, tal como a minha família…

Com eles ainda foi pior.

«Vai-te embora, cara***!», disse ela, agarrada ao volante do carro, sem expressão. Eu notei que a sua agressividade também era uma máscara. A minha melhor amiga, o meu apoio de ultimamente. O outro, como sempre, estava a trabalhar. A Joana, a minha outra amiga, à qual trato por «irmã mais nova», estava sentada no banco de trás, comigo. À frente, apenas estava a Rita e o Filipe. Ontem, a Rita estava um pouco diferente. Parecia mal-humorada, mas era triste.

Senti-me atropelado pelos meus pensamentos mais inseguros naquele momento. Só me restava despedir e entrar em casa, tonto, a tropeçar pelos paralelos da rua.

Dei um beijo no rosto a cada um e um aperto de mão ao Filipe.

Era o momento da despedida.

Olhei a 180º graus.

«Até logo», disse, e abri a porta do carro, com um sorriso na casa, e dirigi-me à entrada do meu prédio. Olhei apenas uma vez para o carro, ainda a sorrir. Não queria sorrir. Queria gritar e chorar e pontapear a porta de vidro do meu prédio. Queria dar três murros na parede, mas não. Era melhor disfarçar.

Entrei em casa e a minha mãe veio dar-me um abraço. Foi tão quentinho. De seguida veio o meu pai com os seus braços estendidos. Vi nos seus olhares lágrimas a quererem fugir, mas fiz de conta que os meus olhos estavam cegos. Principalmente do meu pai, que é difícil vê-lo chorar pela sua personalidade tão séria e forte que passa para os outros, mas comigo ele não é assim. Não ultimamente.

Acolhi-os, entre os meus braços, um de cada vez. E durou ainda algum tempo, mas tinha que ir dormir e acordar bem cedo para partir. E parti.

Chegámos ao aeroporto e parecia que tinha o batalhão atrás de mim. O meu melhor amigo, Frederico, os meus tios, o meu primo mais novo e os meus pais.

Fomos beber um fino no café Sagres, claro!

E as horas já apertavam. Já via os olhares nervosos nos seus rostos. Nos meus pais, nos meus tios, no meu primo… No meu melhor amigo… E, então, decidi ir à casa-de-banho. E fui, sem saber a reação que tomar, mais uma vez. Foi rápido, mas tinha que me mover. Tive que me abstrair. E voltei para o pé deles.

Já estava na hora.

Abracei todos e distribui beijos. Mais uma vez, vi as lágrimas e estava na altura…

Virei costas. Não ia chorar. Eu não choro!

E entrei, a tremer.

Horas depois, no avião, senti-me realizado. Estava a começar a conquistar o que eu sempre tinha desejado.

Já via a ilha pela pequena janela do avião, que abanava com turbulência, enquanto que as nuvens se afastavam para melhorar a minha visão. E, com um sorriso na cara, chorei. Foi ali que perdi as barreiras e que as lágrimas me caíram.

E suspirei.

E abracei a realidade.

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CÉSAR DA SILVA, o independente
Gosta de gelados - muitos gelados! Diverte-se com pouco e cansa-se da rotina facilmente. Gosta de rir e, acima de tudo, de escrever. Sente aquilo que escreve e imagina tudo num mundo totalmente diferente, criado na sua própria mente. Tem 22 anos e sempre conquistou a sua independência. Adora boas séries e bons filmes. É viciado em entretenimento. Escreve aquilo que sente e gosta de dar asas à sua criatividade.