Como pode uma pessoa ter tanto poder sobre mim?

Texto vencedor | Desafio de escrita: «Diário»

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Fotografia © Daniel Mingook Kim | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Daniel Mingook Kim | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

25 de Setembro de 2013: A madrugada em que a ficha caiu

Já ouço os pássaros da madrugada…

Não consegui dormir com tantos pensamentos e palavras presas. A minha cabeça e garganta estavam como que em rebelião e a arruinar qualquer hipótese de descanso. O sono não chegava e desisti da tentativa de o atrair.

Saí da cama e fui escrever com uma banda sonora a condizer como o meu estado de espírito: deprimente. Logo eu, que nem aprecio esse tipo de música.

Gradualmente, a paz voltou a mim. Desabafei tudo através das teclas do computador e prometi a mim mesma reler este texto, quando o meu coração vacilasse numa tentativa de voltar atrás. Serviria como recordação intemporal da amostra de pessoa em que ele me transformou, tudo aquilo que eu não queria nem quero ser.

Mais um dia que acabou mal. Mais uma discussão gerada por ele e pela sua impaciência e desconfiança. Estou no meu limite. Cheguei a um estado que se resume a apatia, piloto automático… Pensando bem, nem sei em que estado estou.

Mais uma discussão parva que me afeta mais do que eu gostaria. Uma de muitas que me desgastam, me fazem sentir dispensável, um lixo. Logo hoje, que o meu sorriso espontâneo tinha voltado e que toda a gente o tinha notado. E tudo por um telefonema, uma chamada que não atendi — por, simplesmente, estar no banho — e que retornei uns míseros minutos depois. Tal como eu já esperava, do outro lado não houve resposta, tanto à chamada, como à mensagem enviada quase logo de seguida com a justificação. Sim, tive o cuidado de me rebaixar a esse nível.

No final da noite, a situação repetiu-se. O resultado foi a indiferença total. Esta situação está tornar-se ridícula, insuportável.

Sinto-me cada vez mais rebaixada, desvalorizada.

Como pode uma pessoa ter tanto poder sobre mim? Ah! É verdade… Fui eu que permiti. Que me apeguei e me apaixonei por palavras de alguém que as dizia sem as sentir. Tenha sido estupidez ou falta de amor próprio, a responsabilidade é inteiramente minha. Eu estava a deixar-me controlar por uma ideia de futuro que tinha quase a certeza de que não ia existir. E, agora, choro quase todos os dias por causa da pessoa que diz que gosta de mim, mas que me magoa sistematicamente e das piores formas possíveis. Uma palavra carinhosa sua é rara. E sinto a estranha necessidade de um elogio, de uma demonstração de preocupação ou de companheirismo. Sinto-me fraca demais e não me reconheço, envolvida nesta carência e desespero por aprovação. Choro por tudo e por nada, tal é a minha fragilidade neste momento.

Tenho uma ilusão de paixão que é unilateral. Ele é negligente e tem uma ideia totalmente retorcida da minha realidade e da pessoa que sou. Parece vingar-se de mim a cada oportunidade e o meu lado racional já fez questão de me alertar sobre isso. Esta pessoa não pode nutrir um sentimento positivo por mim, se tem necessidade de me magoar sempre que acha que eu falho. Desejo o desapego. Será isso errado? Desejo não gostar dele. Desejo paz de espírito e a vontade de desaparecer toma conta de mim. Fico mal, nauseada, ainda com menos sono. São agora 03h40 e, ao contrário de mim, já ele dorme tranquilo.

Não sei o que nos liga. Só sei que já não me é benéfico e que tenho de me libertar desta situação.

O clique emocional de que eu precisava acaba de acontecer. E era exatamente essa a minha intenção ao escrever.

Talvez amanhã ele não fale comigo. Talvez eu já não me importe. Mas nunca sei o que esperar, a não ser tudo e nada.

Tenho de ser uma mulher. Tenho de ter orgulho em mim, de me valorizar, de levantar a cabeça e seguir em frente. Passar do pensar ao agir.

Afinal de contas, não é nada que eu não consiga ultrapassar e quem fica a perder é ele.

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ELISABETE PEREIRA, a ensimesmada
Introvertida aspirante a escritora que tende a confiar mais no papel do que nas pessoas. Apreciadora de música que arrepia, trocadilhos e clichés, ela sonha viajar pelo mundo e conhecer lugares que lhe alimentem a inspiração, o saber e a alma.