Não te demores!

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Fotografia © Vinicius Amano | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Vinicius Amano | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Esperei a vida inteira. Fiquei aqui neste chove que não molha, todos estes anos. À espera que, um dia, tu chegasses. Fui construindo sonhos. Fui-me alimentando de ilusões. Fiz das lágrimas o rio, onde, todos os dias, banhava as minhas mágoas.

Esperei-te. E espero-te. Ainda aqui estou. À espera de te ver chegar. Uma vida inteira em que nada aconteceu. Apenas o tempo passou. E os meus olhos estão cansados de olhar para a linha do horizonte com a ilusão de te ver chegar.

Mas podes vir. Eu continuo aqui. Ainda não é tarde. Ainda podemos viver essa história, que sempre acreditei que era nossa. Se te esperei a vida inteira, posso aguardar mais algumas horas, dias ou, quem sabe, meses. Posso continuar a enganar o meu coração. Dizer-lhe que tu vens a caminho, que estás só um pouco atrasado. Que demoraste mais tempo, porque tiveste que procurar o meu sorriso, que ficou perdido no passado.

Podes vir. Agora ou daqui a pouco. Eu espero-te. Eu ainda não desisti de te esperar. Posso estar nua de sentimentos, mas nunca despida das ilusões. Posso estar virgem de emoções, mas sou uma mulher experiente em sonhos. Sonhei a vida inteira contigo. E agora, no meio da vida, ainda guardo para ti as ilusões de viver esses sonhos.

Vem. Não precisas de me avisar. O meu coração sabe que estás a fazer essa viagem. Sabe que te demoras, porque foste gastando as tuas horas com coisas que te distraíram. Que por vezes te desviaste do teu verdadeiro caminho. Que gastaste alguns minutos, vivendo momentos que te iludiram a mente e te fizeram pensar que era ali que estava o teu destino. Era a cegueira da tentação a adiar-te a meta da felicidade.

Vem. Continua essa tua viagem. A porta está encostada. Quando chegares, entra. Não precisas de bater. Se me encontrares a dormir, por favor, acorda-me com aquele beijo de príncipe encantado, com que sempre sonhei. Instala-te à tua vontade. Esta casa é toda tua. Esta casa é nossa. É a nossa vida, o nosso destino.

Esperei-te uma vida inteira. E sei que já andas aqui por perto. Já sinto o teu perfume no ar. Já sinto a surpresa do teu olhar, como se não fosses um desconhecido. A alegria de correr para te abraçar, com a certeza de que não estou a abraçar um imprevisto. Tu não és o futuro. Tu és o presente da minha vida. Por isso, te esperei desde sempre.

Vem. Não te demores. Não te preocupes com a bagagem. Deixa pelo caminho tudo do que não precisas. Tudo o que te pesa e te impede de voar mais rápido até mim.

Tens contigo tudo o que eu preciso. Dois braços, para me abraçarem. Duas mãos, para me explorarem este corpo que anda adormecido. Um sorriso, para escrever felicidade na minha vida. Dois olhos marotos, para me seduzirem. Que mais posso eu pedir? Apenas que venhas, porque te espero. Esperei-te a vida inteira. E ainda me resta algum tempo que quero gastar para te amar.

Podes vir. Se possível ainda hoje. Amanhã quem sabe se não será tarde! Amanhã poderá ter acabado o prazo que o destino definiu para a minha vida. E, então, terei esperado uma vida inteira sem nunca te ter conhecido.

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ANGELA CABOZ, a miúda gira
Nasceu em Tavira há 49 anos. Desde a adolescência que é uma apaixonada pela leitura, pela escrita, pelo cinema e pela música. Escreve sobre sentimentos e, nas palavras, reflete a maneira de ver e de sentir o mundo. Em 2014, realizou um sonho: a publicação do seu livro «À procura de um sonho». Desde então, tem participado em várias obras coletivas.