A prostituta

Texto vencedor | Desafio de escrita: «A prostituta»

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Fotografia © Ryan McGuire | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Ryan McGuire | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

A Prostituta — chamam-me eles — nascida, como outra pessoa qualquer, segundo a minha progenitora, de cesariana. Dia, mês e ano? Há muito que não tenho bem a certeza. As coisas já não são tão claras como eram antes.

O meu nome? Tatiana. No entanto, «eles» gostam que eu seja a Tamara. A gata assanhada Tamara. A pantera conquistadora, que tão bem satisfaz os seus desejos mais obscenos.

Atualmente considerada uma profissão, é para lhes dar prazer que eu sou paga. «Bem paga», segundo dizem algumas invejosas. Só não entendo o porquê da inveja. Toda a mulher pode, entre as quatro paredes, fazer o que eu faço, ter e dar prazer. Está na natureza de qualquer ser vivo. A não ser que seja algo forçado. E, se for com o homem que queremos, aquele que escolhemos para ficar do nosso lado, existindo assim algo mais que tesão (há quem lhe chame sentimento), quase perfeito. Se as pessoas dessem valor à vida que têm, não tinham tempo de cobiçar o que não lhes pertence. Se as mulheres se valorizassem mais, talvez não precisassem sequer de um homem para simplesmente ser!

O que eu desejei em miúda ter uma família, um lar, uma criança para poder dar aquilo que nunca tive! Sinto-me seca por dentro. No entanto, há amor algures em mim.

São sete horas da manhã, e eu, bem dentro de mim, ainda tenho tempo para estas lamechices. Quando, depois de uma noite cheia, como a de hoje, e não preciso dizer do quê — a minha profissão denuncia-me na perfeição —, devia tentar descansar.

No entanto, não consigo. O amargo, na minha boca, permanece. A sujidade daquelas mãos grossas, rudes, carregadas de maldade, ficou em mim. A força, exercida sobre o meu corpo frágil, deixou marcas. A alma sombria de alguém a quem tudo foi destruído, desde os 19 anos, acordou e não consegue voltar a adormecer.

Detesto relembrar, mas também não me consigo esquecer.

Era só mais uma noite. Tinha tudo para ser como tem sido, ao longo de todos estes anos. Mas alguém, lá em cima, se esqueceu de mim naquele beco. Não bastasse já ser dose suficiente a vida que levo, tinha também de ser agredida, humilhada, forçada a permitir que alguém com o dobro da minha força me usasse e violasse porque… Porque sim.

Nem chorar me é permitido. Como pode uma prostituta, que se permite a fazer sexo pago durante várias horas seguidas, chorar? Seria a questão mais lógica a fazer. No entanto, «a prostituta» é um ser humano, que, por sobrevivência, se predispôs a aceitar o trabalho de «dinheiro fácil» que lhe foi imposto.

E aquele monstro pegou em mim e, num espaço de minutos, fez de mim o que quis, e desfez tudo em mim. Não sobrou nada de mim. Perdi o paladar. Na minha boca, sinto o sabor amargo de um cinzeiro. O odor a tabaco na minha pele, mesmo depois de diversos duches, é o dele. As marcas negras nos meus braços, pernas, daquelas mãos nojentas, marcadas pelo trabalho sujo que me fez. O meu rosto, o pormenor mais belo que me restava, foi esbofeteado, mordido, amordaçado, cortado, deixando marcas que nem o tempo vai levar.

E é este episódio que me tem impedido, dia após dia, de dormir. E, desde que aconteceu, pergunto-me: Que desfecho posso eu dar a isto? Porque não posso simplesmente tentar seguir em frente, encontrar a paz algures por aí?

Mas a situação é bem mais complexa para uma solução tão simples.

E aqui estou eu, 28 dias depois do que aconteceu, com a minha solução nas mãos. Após mais uma noite em que eu já não era eu, e sim uma sombra de um resto num todo que outrora fora. «Solução mais fácil», dizem eles nos livros que li. Possivelmente, sim, para quem não sabe o que é estar onde estou hoje.

Ao monstro que tomou posse de mim e que, a partir de hoje, vive com o meu sangue nas mãos: Que a vida te permita ser feliz com a infelicidade alheia.

A mim, que nasci e sobrevivi, enquanto pude: Obrigada pela coragem e ousadia de seres mais uma no mundo, sem fazer qualquer diferença, sem deixar marca e sendo, simplesmente, quem e o que és.

Narrador: E ouve-se um tiro.

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ANDREIA DE CASTRO, a princesa
Se fosse o seu pai, dir-nos-ia: «A Andreia é uma princesa... Só ainda não sabe que o é.» E, para ele, isto definiria tudo. Porque a Andreia é amor. Amor pelos outros, mas não tanto por ela própria. Porque a Andreia é família: vive para e por eles. Porque a Andreia é o sorriso, a lágrima, o vento, o sol, o silêncio, o mar e o céu sem limite. E, além de tudo disto, a Andreia é ainda solitária, viajada, artista, insegura, auto crítica, beijoqueira. É a princesa que o pai sempre quis ter. E que, até ao parto, esperavam que fosse um menino... Mas a Andreia, porque também é sentido de humor, enganou tudo e todos. E não se limitou a nascer menina. Nasceu princesa.