Não deixes que a tua felicidade dependa de ninguém

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Fotografia © Nik MacMillan | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Nik MacMillan | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Lídia tinha tomado uma decisão, mas era tão difícil levá-la a bom porto e até ao fim. Tinha sido sempre assim. Na minha cabeça, já ecoavam as suas palavras: «Vou deixar esta relação. Deixei de a querer na minha vida. Não é o que quero para mim, e tudo o que eu já ouvira há meses e meses a fio.»

Naquela tarde bebemos um café, daqueles que se prolongaram até às 2 horas da matina. Tomámos o café, passámos para o petisco regado com um bom vinho e Lídia? Falava e falava de toda uma situação amorosa, de toda uma falta de partilha, de toda uma falta de cumplicidade e tinha decidido terminar aquela sua posição de mendigar o amor, a partilha e até um simples telefonema a meio da semana.

Eu ouvi-a com atenção e pensava: «Lídia, isso não é assim tão linear. Tu não podes simplesmente deixar de sentir e falar só para me convenceres.»

Entre mais um trago de vinho, Lídia continuava:

«O amor que tenho cá dentro para dar não é recebido, percebes? Sinto-me a rebentar por dentro, porque tenho tanto para dar e ele não entende isso. Porquê? Quantas vezes combina um jantar comigo e depois inventa a desculpa mais fácil? «Desculpa. Tive uma reunião e já estou cansado. Não consigo ir ter contigo.» E lá janto eu sozinha, à luz das velas, com uma rosa vermelha dentro de uma jarra, como centro de mesa, e com um restaurante inteiro a olhar para mim, como se fosse uma mulher à procura de companhia. Sinto-me sozinha e sem rumo, sempre que isto me a acontece, porque depois vejo e adivinho isso nos olhares dos homens que também lá estão sozinhos, percebes?

No meu melhor vestido, com os meus sapatos mais elegantes e a minha melhor maquilhagem, espero por este homem horas fio, e são os jantares que não pode, as festas que vou sozinha porque tem um jogo de futebol com uns amigos que não vê há meses.

E os serões que combinamos ver um filme, tapados com a manta do amor, a beber um bom vinho tinto à lareira, e ele? Não vem, não aparece, deixa-me a aquecer frente à lareira não só o vinho, como todo o meu corpo que esperava juntar-se ao dele para mais uma simbiose perfeita, para mais um momento em que tudo se resume a nós. Em que se mata o desejo de noites e noites a pensar naquele momento e quando será a próxima vez.

Sinto-me a morrer aos poucos, não sorrio como antes. Sabes, não tenho os meus gostos definidos. Deixei de ir ginásio. Deixei de me cuidar. Deixei de me maquilhar. No fundo, sei que deixei de viver! Até engordei, não vês?

Não saio sem ser contigo, e sabes porquê? Porque és a única que me consegue aturar com esta falta de tudo, de autoestima, de amor-próprio. E sei que não me condenas, mas sei que desta vez não tem volta. Não vou mais esperar por ele. Não vou obrigar-me a dar o amor, a atenção e o tempo que mereço. Não posso mendigar que alguém sinta a minha falta.»

As lágrimas rolavam pelo rosto de Lídia, um rosto de uma mulher outrora tão bem cuidada, que fazia parar os homens. Era de uma elegância extrema, de uma sobriedade peculiar, de uma beleza invejável. Muitas amigas nossas invejavam-na até quando usava uns ténis e o cabelo apanhado.

O seu rosto de mulher de 40 e poucos anos continuava bonito, mas ela não o sabia. Estava, sim, envelhecido. Estava sombrio. Os seus olhos não brilhavam. E o sorriso? Sorria, mas não ria. Sabes, não ria como dantes! Sempre que nos juntávamos era um temporal de emoções, entre risos e lágrimas de tantas recordações e traquinices de outros tempos!

Depois de a ouvir com atenção, de sentir a sua dor e partilhar consigo os seus medos e anseios, estava mesmo na hora de Lídia deixar de viver acorrentada a este amor, que vivia sozinha e nem se apercebia, ou não se queria aperceber. Era menos doloroso.

Lídia, apesar de todas as conversas que já tínhamos tido diariamente, muitas vezes às tantas da manhã, quando ficava frustrada com o homem da vida dela, que teimava em inventar desculpas para não aparecer, não queria ouvir a minha verdade. E precisava só que alguém a ouvisse. Era simples assim.

Lídia, entre as lágrimas e os sorrisos discretos, sempre que me contava uma migalha que aquele homem lhe dava, uma mensagem a dizer que gostava dela, depois das centenas enviadas por ela, continuava:

«Acreditas que tenho consciência de que só me alimento melhor, quando me liga a dizer que passa pela minha casa? Sim, sei que não é normal e faço o quê? Como me desprender deste amor do qual me tornei dependente?»

E era mesmo essa a palavra central de toda esta história de amor, de prisão emocional. Não digo amor não correspondido. Quem era eu para avaliar o que se sente? Os sentimentos não se medem, de todo!

Mas era um amor mal correspondido, isso de certeza que sim. Lídia não podia continuar a deixar de viver, a não se cuidar e a estar dependente de outro alguém para viver, a viver em função da vontade de outra pessoa. Lídia era tão maior que isso!

Resolvi falar ao ouvido de Lídia e tentar que, desta vez, entendesse a mensagem:

«Lídia, não podes continuar a deixar de viver dessa forma. Não podes deixar de te gostar assim, seja essa a pessoa da tua vida ou não, seja essa a pessoa que queres. E não é crime querer muito alguém. Claro que não! É o amor, é sentir que nos dá alento e que nos eleva a outros patamares, aos quais nem pensávamos chegar. Podemos fazer as maiores loucuras por amor, podemos sair dos nossos formatos mais lineares, mas não podemos deixar-nos a nós, Lídia. Isso nunca. Terás de interiorizar isso. Terás de te redescobrir. Terás de voltar a sentir-te viva. Por ti. Não por ninguém. Terás de limpar a tua alma desse amor que tens aí dentro, mas que rói e corrói, e mata-te aos poucos e matou uma parte da amiga que eu tinha! A pessoa alegre, a pessoa cuidada, cuidadosa com os outros, preocupada com as causas nas quais acreditava e que defendia com unhas e dentes. Por falar em unhas, já reparaste há quanto tempo não arranjas as tuas unhas?

Terás de te dar valor primeiro, terás de te encontrar, terás de te amar incondicionalmente e de fazer o que gostas. Ao fim e ao cabo, de voltar a viver, entendes isso? Olha-te ao espelho. Já viste a pessoa bonita que és? Já viste a mulher bem-sucedida que és? Já pensaste em quantos homens davam tudo para ter a tua atenção?

Só depois podes e deves decidir se queres a pessoa na tua vida. Depois de estares sólida, em ti, como uma rocha, sem ser corroída por qualquer erosão. Só aí terás a força para isso!

Não deixes que a tua felicidade esteja dependente de ninguém, Lídia. Isso, não! Tu não vives, tu sobrevives! Amiga, quero-te inteira. Não em metades e em pedaços!»

Terminado o meu discurso, Lídia chorou compulsivamente e eu também. Percebi que tinha sido dura com alguém que só queria conforto e que ouvisse falar da sua morte interior, da sua morte d’alma, mas o meu papel era acordá-la para a sua vida sem rumo, onde permitia que o comportamento de uma pessoa condicionasse toda a sua vida e toda a sua felicidade!

Esta é uma das tantas histórias que se repetem por este mundo fora, dentro e fora do nosso seio de amigos, dentro e fora de todos nós. Não é verdade? Entre homens, mulheres, adolescentes, até entre amigos que deixam que o comportamento dos seus amigos, e muitos deles, os chamados falsos amigos, condicionem os seus próprios comportamentos, os nossos comportamentos, a sua vida, a nossa vida!

Tal como defendia Aristóteles, só a aprendizagem pode ajudar a encontrar a felicidade.

Aprendamos a ser felizes!

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DORA NUNES, a Cinderella
Tem 37 anos e vive em Ponte do Sor — uma «cidade alentejana», diz, «de gente de alma gigante». Trabalha como administrativa num lar de idosos e canta numa banda. Duas terapias que a fazem sentir-se feliz. A escrita surgiu na adolescência. Era uma miúda tímida, com os medos e os anseios tão típicos da «idade do armário». Na escrita, libertava-os, soltava-se. Um desejo? Que cada palavra sua toque o mundo de quem a lê. Sente que a sua missão é ajudar os outros e acredita no lado bom de todos nós. Quem é ela? É a nossa Cinderella!