Quando eu tentava escrever contos

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Fotografia © Annie Spratt | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Annie Spratt | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Não era a primeira vez que te observava, enquanto saias de casa, cabisbaixo, entre os livros que carregavas debaixo do braço. Parecia que carregavas o mundo nos ombros, como se um erro, um passo em falso ou até um desvio de olhar o fizessem desmoronar para sempre. Nunca percebi muito bem a cruz que carregavas, ou talvez o pesadelo que vivias, para que o teu rosto vivesse sempre tão fechado como um dia de inverno.

Mas as minhas atenções não se centravam só em ti. Também havia a Joaninha, a vizinha do lado, que passava metade do dia a tomar banho e outra metade a lavar a casa – diziam que tinha medo da imundice. Mas as pessoas dizem muita coisa. A Joaninha vivia sozinha desde o dia em que o marido a abandonara e fugira da aldeia com outra mulher. Dizem que, desde então, passou a lavar-se com lixívia, para se purificar das marcas daquele homem traiçoeiro. Se é verdade ou não, eu não sei. Até porque a Joaninha nunca se deixou levar pelas cartas de vidente da minha mãe e nunca lhe contou a vida toda, como quase toda a gente aqui da aldeia. A ti e à Joaninha eu observava com a atenção redobrada, pois nunca vos tinha visto de perto, não tão de perto como todos aqueles que, de forma assídua, e outros nem tanto, apareciam na sala das cartas da minha mãe.

Vivias na casa em frente à minha, há menos de um ano, mas eu parecia conhecer-te desde sempre. Além de nunca te ter falado e nem sequer ter estado perto de ti, conhecia melhor do que ninguém os teus passos, as tuas feições, as tuas expressões e, melhor do que tudo, os teus olhos, que não consegui esquecer desde o primeiro dia em que te espiei, como sempre fazia na chegada de novos vizinhos à aldeia. Eram azuis e pareciam despertar a atenção de tudo aquilo em que punhas a vista em cima, como se o mundo conseguisse parar por instantes para te ver passar. Também me recordo que, nesse primeiro dia, estavas tão cabisbaixo, como em todos os outros que se seguiram; que carregavas as malas, como se do mundo se tratasse; e pensei, por momentos, que não ia gostar nada de te observar. Mas foi só o tempo suficiente para perceber que não eras como mais ninguém, e que conhecer-te, nem que fosse de longe, era um objetivo, uma missão que não podia deixar de abraçar. Sempre foste um mistério (para mim, e não só). Lembro-me, como se fosse hoje, das pessoas que vieram bater à nossa porta na semana em que chegaste à aldeia. A Maria da mercearia, a Luísa do talho, a Clara das flores, o Senhor Eduardo e o Senhor Américo, que era e é o dono da casa em que moras. Até tive esperanças de que a Joaninha aparecesse, naquela euforia de entra e sai que se viveu, cá em casa, naquela semana. Todos queriam a mesma resposta, «o que escondiam vocês». E a minha mãe, que sempre esteve longe de saber o que dizem as cartas, se é que dizem alguma coisa, ficou realmente aflita e temeu, pela primeira vez, que descobrissem que estranhas éramos nós e que ela era tudo menos vidente. Eu sempre soube que ninguém acreditava, que as pessoas começaram a aparecer por curiosidade e que se deixaram convencer pelos conselhos sábios que a vida se encarregou de deixar à minha mãe. Nunca acreditaram que as cartas, que os homens utilizavam para apostar parte do seu dinheiro aos domingos à tarde, soubessem assim tanto. A minha mãe encarnou tão bem o papel, acreditou tanto na mentira que criou, que muitas vezes parecia convencida de que as cartas lhe diziam realmente alguma coisa.

Como seria de esperar, ela não sabia qual era o vosso mistério. Por isso, e porque o trabalho o exigia, fez-me companhia na janela do meu quarto. Não sei o que conseguiu ver ou o que inventou para que toda a gente ficasse satisfeita com as respostas, mas o que disse não deve ter sido bom, porque todas as consultas foram dadas quando eu estava na escola. Mal sabia ela que, tantas vezes, me escondia debaixo daquela mesa e que sabia tanto da vida de toda a gente como ela própria. Até hoje não sei o que foi dito, mas acho que uma boa parte de mim teme, um dia, vir a saber a verdade.

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CATARINA ANDRADE, a psicóloga a bordo
Tem 27 anos. É psicóloga de formação e assistente de bordo de profissão. Sempre gostou de escrever e, se lhe perguntarem, não se lembra de quando o começou a fazer. Como sempre foi muito crítica para consigo própria, deitava fora quase tudo o que escrevia. Agora, vai-se deixar disso. É este o desafio.