Quem é ela?

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Fotografia © Roman Kraft | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Roman Kraft | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Por vezes, menina, inquieta, teimosa, insegura, que tem medo e não arrisca. Por vezes, mulher, destemida, espirituosa, criativa, que se atreve quando menos se espera. Sempre amiga, dedicada e sincera.

Miúda de origens humildes, revestida de mil camadas. Chegou de sorriso hesitante, com vontade de crescer, de chegar a algum lugar que não fosse a lugar nenhum. O seu eu moldado por este mundo carrasco e selvagem. Passo a passo, tropeça e levanta-se, reconstrói, vezes sem conta, o seu caminho.

Hoje, descrente, desconfiada. As feridas, infligidas por batalhas antigas, espelhadas no rosto e no corpo. O sorriso mais fácil, a máscara mais firme. Mais impaciente do que nunca à medida que se acrescentam anos aos trinta.

Por vezes, com ar de desânimo, apaga-se, torna-se invisível. O corpo presente, a mente ausente. Esconde-se algures dentro de si, onde não chega nem luz nem vivalma. Por vezes, enérgica, aparece. Quando sabe o que quer, age com uma determinação que poucos lhe conhecem.

Seu olhar, labirinto mutante, de percursos intrincados que surgem e desaparecem ao sabor das luas e das marés. Um desafio desconcertante a quem se atreve a percorrê-lo. É um universo que intimida e encanta, que seduz e afasta. É brisa num dia de verão e chama num dia de inverno. É um porto de abrigo, um lar. Inóspito no seu exterior. Acolhedor no seu interior.

Porque são tantas as defesas construídas em seu redor? Porque não se deixa mostrar? Porque não se dá a conhecer?

Algures no caminho, entre o ontem e o hoje, caiu. Quebraram-lhe o espírito. Toldaram-lhe a vontade. Os anos perdidos, as feridas cicatrizadas, os danos (os possíveis) reparados. Do fundo do poço, reergueu-se. Aprendeu que só contava consigo. Que só dependia de si. Na subida descobriu uma força que desconhecia. Redescobriu-se. Encontrou nas palavras o alívio, nos sons o conforto, nos traços a fuga.

Menina e mulher, intuitiva e racional, indecisa e resoluta, apaixonada e fria, ansiosa e serena, atenta e distraída. Ela, antítese viva, é puro enigma. É medo e coragem, fragilidade e força.

As lágrimas da noite seguram-lhe o sorriso do dia. Tem a sensibilidade à for da pele, mas é pragmática no dia a dia. Chamam-lhe instinto de sobrevivência.

É mulher de emoções, não da matéria. Adora as cores douradas do outono e o frio azul do inverno. Gosta da paz do seu refúgio, do quentinho do seu canto. Detesta confusões, mas gosta de gente. Carrega no peito sonhos antigos e um amor imenso para oferecer.

Camaleónica, adapta-se. Pé ante pé, testa terreno. Se hostil, incerto, ergue a sua armadura impenetrável. Se convidativo, confiável, desarma os escudos, gradualmente. Pode nunca se revelar na totalidade. É difícil de conquistar. Os seus pontos fracos, compensou-os. Observa, ouve, sente, analisa, deduz. Atenta no que mais ninguém repara. Detesta a condescendência. Detesta que a subestimem. Mas também sabe que, por vezes, esse é o seu maior trunfo.

Quem é ela? Nem ela sabe. Conhece-se melhor a cada desafio que a vida lhe traz. Ela é um mundo inteiro ainda por descobrir.

Os fantasmas do passado amedrontam-lhe os passos. Que não lhe falte o alento nem a esperança. Que escolha melhor as suas lutas. Que não desista perante o cansaço.

Que ela siga o seu caminho em paz com o passado. Tudo o que viveu são peças da sua construção contínua. Não seria ela quem é se assim não fosse.

Podia esta mulher ser melhor ou pior pessoa do que é? Podia, mas já não seria eu.

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ANA PEREIRA, a inquieta
Nasceu numa noite estival, mas tem alma outonal. Convive com os números, mas encontra refúgio nas palavras. Aparenta serenidade, mas governa-a uma mente deveras inquieta. Se lhe perguntarem, é assim que se define a si própria. Aliás, estas foram palavras dela.