Antes ser nada, que uma mera opção

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Fotografia © Rosalind Chang | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Rosalind Chang | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Para mim, acabou. Cheguei ao ponto de não retorno. Apanhei o voo só com um bilhete de ida. Finalmente, chegou a altura de baixar os braços e não lutar mais por manter-te na minha vida. E eu sei o que as pessoas vão pensar: «Sim, já disseste isso incontáveis vezes antes.» E, sim, é bem verdade. A diferença é que, neste caso, eu não estou a dizer nada. Estou apenas a partir, de vez.

Não me arrependo de nenhuma das coisas que fiz por ti. Não me arrependo de todas as vezes que engoli o meu orgulho e fui atrás, só para que tudo ficasse bem. Não me arrependo das noites em branco, a tentar decifrar-te a ti e a nós. Nem tão-pouco me arrependo de todas as alturas em que perdoei os teus erros, ou as tuas palavras que não passavam de mentiras. E as lágrimas infindas que derramei por ti? Que seja. Afinal, se for para chorar, que seja por alguém que já nos concedeu tamanhas alegrias.

Mas, para mim, acabou mesmo. Tudo isso. Até porque se me esgotaram as palavras e os choros e as forças. E, hoje, acordei para um dia de sol e apercebi-me de que mereço mais do que ser uma mera opção tua, que não hesitas em pôr de lado. Sempre te coloquei à frente do mundo inteiro, e a tua paga foi meteres-me em último plano, assim que te chegavam as — ditas — distracções. Para mim, chega! Eu nunca fiz nada para merecer ser rebaixada por ti, depois de todas as vezes que fui a única que se preocupou em levantar-te.

Acusas-me de interferir na tua vida. Acusas-me de não te deixar ser livre. E acusas-me ainda mais de não virar a página e estar sempre a tocar o mesmo disco. Então e tu? Não é isso que tu fazes, quando gostas tanto de uma música, ou de um livro? Pois. Bem me parecia. Mas, na verdade, deixei de gostar de tudo o que representas. E todas essas acusações falaciosas não fazem sentido. Até porque o meu maior sonho era ver-te ser feliz como nunca foste. Até porque sempre tentei alimentar essa tua sede de voar.

Livre? Sabes sequer o que isso representa? Para ti, é estares na vida amarga e louca das noites, a envolveres-te em corpos aleatórios e a derramares copos que nem contas. Ser livre não é isso, meu caro. Ser livre é seres quem és e fazeres o que te vai no coração. E, se essas coisas são aquilo que tu queres e aquilo que tu és, então eu não gosto de ti simplesmente.

Nem da minha amizade foste digno. Olhas para mim enquanto choro, e viras-me a cara. Desrespeitas-me das piores maneiras e nem a decência tens de vir pedir-me desculpa, por mais que te pareça algo insignificante. Nunca conseguiste entender os meus sentimentos e o meu apreço por ti. Gozavas-me, apenas. É mais fácil, não é? Mas a verdade é que, de todas as vezes que caías, eu estava lá a amparar-te. E, de todas as vezes que saías magoado, era eu quem te limpava as feridas. Nunca me retribuíste nada e eu cansei-me de esperar. Para mim, acabou.

Acusas-me de pedir demais. Acusas-me de nunca estar satisfeita e de querer tudo à minha maneira. E, no entanto, tu é que insistes em ser demenos, e sempre foste tu quem levou a avante. Sempre foste tu que fizeste o que bem querias, que me magoaste vezes sem conta, e eu perdoei-te. Tu vinhas e eu deixava-te. Tu sorrias e eu sorria de volta. Agora? Agora, já nem te consigo encarar sequer.

Achas que estás melhor sem mim? Enganas-te. Eu fui tudo aquilo que alguém deveria ser para ti. Fui demais, até. Eu fui tudo aquilo que ninguém jamais conseguiria ser. Eu fui aquela que te adorou incondicionalmente, até mesmo os teus lados mais obscuros. Então, responde-me: quem é que, aqui, fica a perder? Tu, que perdeste quem mais fez por ficar contigo; ou eu, que só soube ser gozada e usada sem qualquer pudor? Pois. Bem me parecia.

Talvez, um dia, te apercebas que eu só estava a tentar ajudar-te a ser maior. Enquanto tu só me soubeste tratar como se eu fosse o mais insignificante possível.

Posso não ter ganho a guerra. Mas foste tu quem perdeu quem mais lutava por ti.

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VIAthe weight of my words
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DANIELA ROSA, a que nunca se cala
Escreve desde que se lembra. Quiçá, por sempre ter sentido que um só mundo não lhe bastava. Portanto, é isso que ela faz, é isso que ela é: ela escreve. De si e para vocês, que a leem. Talvez, um dia, ela seja mais. Até lá, palavra a palavra, há de alcançar o seu sonho: o de, finalmente, se encontrar… Quem sabe? Pelo caminho, pode ser que a encontres: a sonhar, a escrever e a acreditar.