Não vás. Fica mais um pouco

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Fotografia © Alejandra Quiroz | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Alejandra Quiroz | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

— Não vás. Não vás já… Fica mais um pouco – diz-me ele, numa voz rouca e sensual.

Olho para a lua, cheia e bem alta, oiço a música de fundo que acabaste de colocar, suspiro e sinto-te aproximar. Disfarço o que sinto, até para mim própria, dizendo:

— Que linda que é esta vista da tua varanda! Custa-me deixá-la, mas tenho mesmo de ir.

E viro-me para me despedir.

Paras-me, a centímetros de ti, e olhas-me, com uma intensidade tal, que fico hipnotizada.
Já nos conhecíamos há um tempo, mas nunca te tinha visto assim, desta forma tão desconcertante.

Um arrepio percorre o meu corpo, com o toque da tua mão na minha cintura. Puxas-me suavemente para ti. Deixo-me ir, neste meu jeito confiante de quem nunca se deixa afetar pelas setas do cupido, mas mortinha de medo de, por ti, me apaixonar.

Estamos cada vez mais colados. Tanto que já sinto a tua respiração a eriçar-me a pele. Os teus lábios encontram os meus num momento de prazer, de emoção, de desnorteio. As nossas línguas dançam num ritmo alternado e os nossos corpos se desejam, as nossas almas gritam por mais. Encostas-me à parede fria, que nem senti de tão quente que estou, e as tuas mãos vagueiam perdidas em mim, sem um rumo predestinado, mas há muito almejado. Despes-me, peça a peça, e as minhas capas vão caindo, uma a uma. Entrego-me a ti, a este mundo de sensações, sem defesas, sem timidez, com sentimento.

E, desnudada de mim, me visto de ti, da tua pele na minha, dos teus olhos nos meus. E, enleados num emaranhado de mãos, de línguas, de toques e de sentires, de pernas e de sexos, partilhamos o mesmo ritmo, o mesmo compasso, a mesma respiração. Os gemidos e as gotas de suor libertamos ao vento, nesta viagem pelo mundo dos sentidos, com a lua sendo o teto e as estrelas o candeeiro. Ora carinhosa, ora mais aguerridamente, atingimos o pico máximo da excitação, soltando, em uníssono e em surdina, um último grito de prazer.

Recuperamos a respiração lentamente e o controlo do nosso coração. Envolves-me num abraço e a minha cabeça, já mergulhada em pensamentos, repousa, agora, no teu peito. O silêncio reina em nosso redor, mas a minha alma inquieta despertou para o seu lado racional. E, num movimento repentino, levanto-me e digo-te que tenho de ir.

— Não vás. Não vás já… Fica mais um pouco — diz-me ele, com a mesma voz rouca e sensual.

Respiro com dificuldade. Mexes comigo muito mais do que eu imaginava, muito mais do que eu queria e, por isso mesmo, preciso de ir, de fugir. Não te posso deixar entrar. Tenho medo. Caramba, tenho mesmo medo! O senhor cupido nem pense que me ganha. Eu sou imune ao seu veneno e sei me esquivar bem das suas setas. Ai, se sei! Sou exímia nessa arte!

— Já sabes que eu não sou de ninguém. Que voo livre e solta por aí. Que não quero magoar ninguém, nem ter amarras – digo-lhe eu com um ar assertivo e inquestionável.

Seguras-me na mão, e olhos nos olhos, perguntas-me quantas estrelas, nesta nossa noite, contei. E eu que pensava que vinha aí uma pergunta ou uma afirmação pertinente, que me deixasse sem jeito, capaz de me render. Rio, divertida e aliviada por ser apenas isso, um contar de estrelas. E, enquanto rio, tu continuas o que estavas dizendo:

— Fica mais um pouco até contarmos as estrelas que hoje nos alumiaram, que hoje foram nossas cúmplices neste crime que foi amar, e depois vai, quando quiseres.

Sorrio, surpreendida com o pedido. E ali fiquei. Adormeci no quente do teu corpo, que me aquece a alma sem me queimar. De mão dada, nessa mão que me segura sem apertar, no aconchego desse abraço que me envolve sem sufocar.

Sussurras-me ao ouvido:

— Não vás. Não vás já… Fica mais um pouco. Fica para a eternidade.

E eu fiquei.

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SÍLVIA SANTOS, a menina-mulher
Diz, por brincadeira, que é a Sílvia e a Aivlis — o seu nome escrito de trás para a frente. Porquê? Porque é de opostos. Voa e rasteja. Ri e chora. Reflete e descontrai. Uma menina-mulher, das que não sabem que sabem e que pensam que não sabem, mas sabem. Forte, mas resistente. Insegura, mas persistente. Com sede de viver, de sentir, de experimentar coisas novas: tanto pratica artes marciais, como salta em queda livre no meio das palavras. O que a sufoca? A monotonia. Anda constantemente em busca de novos desafios — e foi assim que veio aqui parar.