Amo-te até ao fim

Texto vencedor | Desafio de escrita: «Abandonada no altar»

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Fotografia © Robert G Allen Photography | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Robert G Allen Photography | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Avistara os olhares fitados diante de si – todos a olhavam, sem palavras. Eram como se a julgassem em silêncio, em pensamento… Era como se cada sopro, expirado das suas bocas, a afetasse como lâminas. Sentira-se impotente e desarmada. As suas mãos transpiradas seguravam o ramo de flores – violetas, as suas favoritas. Sonhara com aquele momento quase toda a sua vida, mas já estava tarde. Não tinha relógio consigo, mas a sua mente contava cada segundo como se fosse uma hora. Sendo assim, já se teriam passado dias.

Os seus cabelos alongados, loiros e ondulados, pousavam-se caídos pelos seus ombros – não havia véu; ele insistira para que ela demonstrasse o seu rosto «esbelto», como lhe sempre dizia.

Ela não se sentia esbelta.

Ela não se sentia perfeita.

Lembrava-se de como tinham planeado tudo no interior do próprio quarto e nos suspiros e sorrisos que trocaram.

Mas já era tarde.

Ele não vinha.

Ele não veio.

Ele era o que ela imaginara como sendo o príncipe encantado da sua vida. Era moreno, alto, e possuía um porte de atleta. Tinha cabelo negro como carvão e os olhos cinzentos como o céu nubloso de Inglaterra, onde se conheceram. Haviam-se conhecido no trabalho e, meses depois, já viviam por baixo do mesmo teto, mas… O que o levara a fazer isto?

Sara olhava todos os rostos fixados nela, confusos. Ela estava perdida, sem noção.

Tão culpada…

Lá fora, chovia – ela olhara pela enorme janela da capela. Era um dia cinzento, tal como ela se sentia por dentro: morta.

O bombear do seu coração acelerava à medida que esperava até que não aguentou mais. Lançou o ramo de flores contra o chão e, com a sua mão direita, segurara o seu longo vestido branco, correndo até à enorme porta de madeira onde, supostamente, iria sair feliz ao fim da cerimónia. Fora só uma ilusão e o sangue que o seu acelerado coração bombeava já lhe fervia o corpo, enquanto que lágrimas começaram por escorrer pelo seu rosto.

Sara abrira a porta com toda a sua força e continuara a correr, enquanto sentia gotas frescas, que vinham do céu nublado, debaterem-se contra o seu rosto. Descera um degrau e mais outro até que tropeçara no terceiro, rebolando a toda a velocidade pelo resto das escadas no exterior da capela. Rasgara o vestido e o seu joelho, tal como o seu coração também fora rasgado brutalmente.

Que vazio…

Sentia-se fraca e revoltada.

O seu olhar semicerrara em tormento e, porém aleijada, erguera-se e seguira até ao seu carro que a levaria até ao aeroporto de viagem para a sua noite de núpcias.

Abrira a porta do lugar do condutor, enquanto, com a sua mão esquerda, limpava e borratava os seus olhos juntamente com um gemido de agonia. Sentara-se e baixara a pala, que protege os raios solares de se baterem nos olhos do condutor, e via a última fotografia que tirara com Edgar, o seu noivo. Ambos se viam felizes. Os sorrisos e o abraço mútuo e quente na beira-mar. Os dois estavam magníficos e perfeitos. Juntos!

E rapidamente sorrira, passando o seu polegar pelas duas nucas carecas da fotografia. Fora o dia que rapara a sua cabeça – que fizera desaparecer todo o seu cabelo. Fora um dos dias de fisioterapia que Edgar tinha feito, onde já a maior parte do seu cabelo se tornava fraco.

Sara olhara-se ao espelho do retrovisor, onde outra lágrima escorrera pelo seu rosto e puxara a sua peruca loira para trás. Descartara-a para fora do carro, através da janela aberta. A sua nuca estava nua.

Olhara para baixo, perdendo a força, deparando-se com um envelope diante dos seus pés e abrira-o:

«Querida Sara, sei que não te devia ter feito isto, meu amor, mas mereces melhor. Não me procures e não te prendas a mim. Não tenho muitos dias pela frente, como sabes, e isto pode ser egoísta, mas quero que sigas com a tua vida e percorras o mundo como sempre sonhaste. Atrás deste papel, tens tudo preparado para ti em 15 países. Diverte-te, pois, se estás a ler isto, eu já estarei longe. Isto é o meu pedido de desculpa para ti.

Não consigo mais ver-te sofrer por minha causa.

Amo-te até ao fim.

Edgar.»

Vira uma mancha de uma gota no canto inferior da carta. Era uma lágrima, e não era a dela.

— Não… – Dissera, sabendo que não iria desistir dele. — Eu vou encontrar-te, mesmo que te escondas. – Prosseguira, firme, em desabafo.

Iria procurá-lo. Iria levá-lo consigo.

E encontrou.

E levou.

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CÉSAR DA SILVA, o independente
Gosta de gelados - muitos gelados! Diverte-se com pouco e cansa-se da rotina facilmente. Gosta de rir e, acima de tudo, de escrever. Sente aquilo que escreve e imagina tudo num mundo totalmente diferente, criado na sua própria mente. Tem 22 anos e sempre conquistou a sua independência. Adora boas séries e bons filmes. É viciado em entretenimento. Escreve aquilo que sente e gosta de dar asas à sua criatividade.