Estou só triste

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Fotografia © Veronika Balasyuk | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Veronika Balasyuk | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Estou perdida. Estou completamente perdida. Não sei o que sou. Não sei sequer o que quero ser. Achava que a vida era mais cor de rosa e os sonhos ainda tinham o dom de nos fazer voar. Mas, hoje, sinto que perdi as asas.

Não tenho vontade de viver. Não tenho vontade de viver assim, sem saber onde começo e onde acabo, sem ter uma razão para acordar todos os dias. A vida sem ti deixou de ter a graça que tinha, deixou de me fazer sorrir, deixou de me dar razões para acordar todas as manhãs. Os dias são, agora, meras horas que não me preenchem e, antes, eram tanto. Antes, éramos tanto. Éramos sol, éramos paixão, éramos loucura, éramos irreverência, éramos ousadia, éramos carinho e éramos vida. Antes, éramos e, agora, já não somos. E o nosso fim foi o meu fim, embora para ti tenha sido o início. Não te censuro. Sempre tivemos formas diferentes de encarar as tristezas. Talvez porque a vida te tenha dado obstáculos muito mais cedo do que a mim. Talvez por teres desenvolvido, muito mais cedo que eu, as tuas próprias estratégias de superação.

Sempre achei que as pessoas exageravam quando diziam estar em depressão. Sempre achei que era uma condição que podia facilmente ser mudada, com esforço e dedicação. Hoje, sei que estava completamente errada. A depressão não é uma condição que tu escolhes ou não ter. É um monstro que se apodera de ti, sem que te apercebas exatamente que ele lá está, a corroer cada bocadinho do teu corpo. E as pessoas veem-te a cair nesse buraco sem fim e dizem, como antes também eu dizia, «estás assim porque queres, levanta-te e faz-te à vida». As doenças psicológicas não têm marcas visíveis e as pessoas não se apercebem da dor que nos trazem. Se tivéssemos uma perna partida todos nos diriam que não nos esforçássemos, que ficássemos exatamente no mesmo lugar, mas, como apenas alegamos tristeza, dizem-nos que estamos assim porque nos acomodamos.

Nós fomos só um mote para que eu percebesse que estava completamente perdida. O nosso fim foi só o mote para que eu percebesse que sempre sonhei para nós e não para mim. O nosso fim foi só um mote para que eu percebesse que não há pessoas perfeitas e que eu estou longe de o ser. Apercebi-me que me demoro na tristeza, que demoro muito mais tempo na tristeza do que na felicidade. Apercebi-me que não sei controlar uma tristeza, que já me corre no corpo, como o sangue nas veias. Uma vez disseram-me que a vida nos dava estaladas na cara, estaladas que nos deixavam a sangrar, estaladas que doíam no coração. Hoje, sei que estavam certos.

Olho à minha volta e vejo que as minhas pessoas sofrem. E eu sofro com elas. Sofro as minhas dores e as deles. Vejo as pessoas que achavam ser fortes, valentes e guerreiras, caírem, mesmo aos meus pés. E, se elas não aguentam, como vou eu aguentar? Eu, que nunca fui forte, que desisti na maioria das vezes. Estou cansada deste mundo de crueldade e desassossego. Cansada de um mundo que dá as maiores batalhas a quem já lutou tudo o que o corpo conseguia lutar, mas ainda assim tem de levar com mais umas quantas. Estou cansada de estar cansada.

Hoje, escrevo um texto de desencontro comigo mesma, um texto em que me consigo aperceber de que não me conheço, que não me revejo nas minhas atitudes, que sou muito mais um corpo sobrevivente do que um corpo ardente de objetivos e sonhos. Eles estão ali, mas ainda é muita a distância que os separa da força que tenho de encontrar em mim para os realizar. Hoje, escrevo porque é assim que me sinto mais calma, mais compreendida. Porque as pessoas ainda têm alguma dificuldade em compreender-me; em perceber que, às vezes, estamos só tristes, sem precisarmos de um motivo para isso. Eu não sei porque é que estou triste, mas estou. Estou só triste. Estou só cansada. Estou só perdida. Porquê? Não sei. É assim tão difícil compreender isso?

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RAQUEL FERREIRA, a engenheira
É de uma aldeia perdida no norte do país e ambiciona ser mestre em Engenharia Civil. No percurso, apaixonou-se pelas palavras e escreve. Sobre tudo. Sobre nada. Ainda não é tudo o que quer ser, mas luta todos os dias por isso.