Ontem, liguei para a minha infância!

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Fotografia © Gabby Orcutt | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Gabby Orcutt | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Ontem, liguei para a minha infância. Liguei-lhe de um telefone portátil, imaginem! De um telefone do tamanho das minhas mãos. Igual aos que víamos nas novelas brasileiras – mas muito mais moderno. Quando a minha infância atendeu, não quis acreditar que lhe estivesse a ligar de um telefone assim. Não achou que fosse possível. Achou que devia estar a ligar de um futuro mais longínquo. Desconfiou até, por momentos, que eu lhe pudesse estar a ligar de outro planeta.

— Não. Estou a ligar-te apenas 30 anos mais tarde.

Quis saber tudo. De um impulso só. Quis saber se era como imaginávamos quando éramos pequenas, quando a única preocupação era saber que personagem íamos encarnar, naquele instante. Bastava pensar e fazíamos acontecer. Bastava sonhar e começávamos, logo, a flutuar. Quantos países visitei, sentada nas escadas do prédio, imaginando estar num avião com asas grandes, que me levava até lá? Quantos vestidos de seda selvagem usei, com toalhas de mesa que, orgulhosamente, ostentei? Quantos jantares dei com sopas feitas de terra? Bastava querer e a força do sonho fazia acontecer. Ficámos à conversa. Daquelas conversas que se têm com os grandes amigos, durante horas sem fim. Daquelas conversas que nos levam até às memórias. Até às boas memórias. Entusiasmada, a minha infância quis confirmar se as coisas, agora, eram melhores. Quando somos pequenos, imaginamos que, em adultos, vai ser tudo muito melhor e que seremos, no mínimo, donos de metade do mundo. Porque, quando somos pequenos, basta sonhar e começamos, logo, a flutuar. Foi nessa altura que parei para pensar. Parei no tempo. Parei com o tempo. Não sabia, ao certo, o que lhe responder.

— São melhores, creio. – Acabei por responder, não, totalmente, convencida.

— Não me pareces muito convicta. – Intrigou-se, ela.

E não estava. Para poder ser honesta comigo – e, essencialmente, com ela, não tendo o direito de lhe roubar todos aqueles sonhos – pedi-lhe para me recordar como foi a nossa infância. Foram tantas as coisas que aconteceram desde então, que era preciso rever a matéria dada, tal e qual como fazíamos nas vésperas dos testes.

E, devagarinho, ela começou a dissecar pequenos fragmentos de história. Da nossa história. Da história de tantos nós. Recordou-me, horrorizada, que a nossa infância foi vestida de roupas de fazenda – horrível, por sinal –, que a única função que tinha era picar-nos a pele – de tal maneira, que chegávamos a ficar em chagas, de tanto nos coçarmos. Por sua vez, no verão, não havia roupas de fazenda, mas, havia vestidos apertados e cheios de folhos, com sandálias e meias brancas de renda até ao joelho. Fechei os olhos e viajei até ao quarto da minha mãe para visualizar a fotografia, gigante, que ela insiste em manter exposta, comigo, tal e qual assim. Vestido vermelho, sandálias e meias brancas. De renda, claro. De seguida, saí do quarto para a minha infância me levar até à rua. Já lá, recordámos, de sorrisos rasgados na cara, as tais sopas de terra, o jogo do elástico – como era possível conseguirmos saltar, com o elástico pelo pescoço? – e as viagens ao pão quente, às sextas-feiras à noite. Foi tão bom recordar todos os cheiros, as cores e até o picar da fazenda na pele. Voltámos a casa. Sentámo-nos no sofá para recordar que as televisões só tinham dois canais e não tinham comando. Às segundas-feiras, era dia de jogos sem fronteiras e o festival da canção era de visualização obrigatória. Lembrámo-nos das férias de verão, do tostãozinho para o Santo António e de terminarmos a noite a saltar a fogueira. Quando queríamos saber dos nossos amigos, ligávamos para casa dos pais e perguntávamos, educadamente: «É da casa da Maria? Ela está?» Tínhamos cuidado com a conversa, pois todos os segundos entravam na conta, ao fim do mês.

Olhámos uma para a outra. Sabíamos que estava na altura de chamar a adolescência. E lá veio ela com a sua rebeldia que tanto gostava de ostentar. Já não trazia aquela permanente que tanto insistiu em fazer, quando tinha 13 anos – da qual se arrependeu, no mesmo segundo em que se viu ao espelho -, mas permanecia com a certeza de que já era muito adulta e que concentrava em si todas as verdades do mundo. Quando olhei para ela, sorri. Ainda pensei em lhe dizer o quão errada estava, mas escolhi ficar em silêncio. A adolescência serve para isso mesmo. Para perceber que todas aquelas verdades, irrefutáveis na altura, não passam de ferramentas de aprendizagem, fundamentais, para nos tornar mais fortes e conscientes. Deixei a adolescência contar tudo. O que era certo e o que fora tão errado. Tudo fazia parte. Senti-a a acalmar-se, serena e gradualmente, até que, por fim, me perguntou:

— Não percebo. Agora já podes ter tudo o que imaginaste, quando eras uma de nós. Já podes viajar, ter vestidos de seda e já podes ter grandes jantares. Porque nos ligaste, desse telefone futurista?

Sorrindo, chamei-as até mim. Pedi que nos sentássemos como fazíamos antes, naquelas escadas do prédio, quando viajávamos pelo mundo.

— É verdade. Hoje, tenho um carro que me leva onde eu quero estar; tenho uma panela, de verdade, onde faço sopas deliciosas e caio no erro – quase todos os meses – de comprar mais uma peça de roupa – da qual, felizmente, não preciso. Mas, de quando em vez, é preciso vir até aqui.

— Porque? – Perguntaram em uníssono.

— Para que nunca nos esqueçamos de que é aquilo com que sonhamos em pequenos que faz de nós grandes!

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JÚLIA DOMINGUES, a JUX
Tem 38 anos. É solteira e igual a si mesma. Licenciou-se em Direito, sendo Jurista, mas a mais sábia aprendizagem foi aquela que a camaradagem desses tempos trouxe — e que dura, na maioria, até hoje. Tem um refúgio que gosta de pensar que é secreto: Braga, Gerês, a terra dos seus pais. Desde os 25 anos que diz: «Qualquer dia, piro-me de vez para o Norte. Quando for grande.» Mas nunca se pira, apesar de já ser grande. Adora tudo o que seja trabalhos manuais e o desenho é, sim, a sua verdadeira paixão. Tem fobia a andar de avião. E acredita no amor, embora não em coisas especiais. Afinal, não é preciso que ele venha de cavalo branco.