A convivência

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Fotografia © Charlie Foster | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Charlie Foster | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Uma vez, li num livro – que, por sinal, é um dos meus preferidos – que a convivência é a pior inimiga dos grandes amores e das relações em geral. Não estava escrito assim – estava bem melhor e mais bonito, ou não estivesse eu a falar da Isabel Allende. Sempre me questionei se seria verdade e se a personagem criada pela Isabel teria, realmente, razão. Começo a acreditar que tem, mesmo, muita razão.

Sem convivência não há relações, sejam elas de que tipo forem. Pelo menos, para mim. Quanto a isso, acredito que a maioria de vocês concorde comigo – ninguém conhece, verdadeiramente, alguém sem convivência. Mas não é disso que estou a falar aqui. Estou a falar da convivência diária, sabem? Vinte e quatro sobre vinte e quatro horas. Quase non stop. Estou a falar de quando conseguimos adivinhar a fala seguinte, a chatice que vem sempre depois e as piadas – o que haverá de mais aborrecido do que já conhecermos o reportório, quase completo, das piadas? Estou a falar também da falta de limites de quem tem sempre alguma coisa para dizer. A convivência adora opinar, e adora ainda mais que não lhe consigam responder.

A convivência é uma velha rezingona a quem, muitas vezes, não temos a coragem de dizer basta. Todas as pessoas, mais ou menos educadas, respeitam os mais velhos. E a convivência é assim: algo que respeitamos, mas que muitos de nós, na maioria das vezes, não suportamos. Não sei em relação aos grandes amores, mas, nas outras relações, a Isabel tinha toda a razão. A convivência é o maior dos desafios e nem sempre é fácil sobreviver-lhe.

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CATARINA ANDRADE, a psicóloga a bordo
Tem 27 anos. É psicóloga de formação e assistente de bordo de profissão. Sempre gostou de escrever e, se lhe perguntarem, não se lembra de quando o começou a fazer. Como sempre foi muito crítica para consigo própria, deitava fora quase tudo o que escrevia. Agora, vai-se deixar disso. É este o desafio.