Do sonho à realidade

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Fotografia © Anthony Delanoix | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Anthony Delanoix | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Já não sei como tudo aconteceu, como acabou o “nós”. O final acabou por chegar contra a nossa vontade. Mal nos apercebemos do fim. O cansaço tinha tomado conta de nós. Decidiste finalmente pela vida que já tinhas há muitos anos, pela vida de gratidão. Foste forte para me deixar ir. Perdeste-me porque assim o quiseste! Porque a decisão estava em ti!

Os meses foram passando. Não muitos. Não ao ponto do coração amaciar o amor que tínhamos um pelo outro, enquanto de longe eu fui vendo que continuavas na tua vida de sempre, a que sempre tiveste antes de eu fazer parte dela. A minha vida tinha mudado, e muito! Em pouco tempo, tinha chegado ao meu limite de sobrevivência e decidi finalmente tentar viver. Viver sem medos e viver em paz.

Já estava eu a viver sozinha com os meus filhos numa outra casa, uma casa fabulosa. Era uma casa junto ao mar, numa praia calma. Um sonho realizado. Aquele sonho que, um dia, também se tinha tornado nosso. Era fim de semana. Estava sozinha em casa. Aprendi que estar sozinha era bom para o meu interior. Aquela mudança fez-me isolar um pouco das pessoas, mas era algo que me fazia falta. Queria mudar tudo na minha vida. Até eu precisava de mudar o meu interior. Por isso, agarrei algo que aprendi contigo. Aprendi a estar tranquila, quando eu sempre fui um turbilhão.

Há meses que não te via — ou melhor que não nos víamos, frente a frente, porque de longe eu ia-te vendo. Precisava de ter a tua imagem presente nos meus dias. Falávamos muito raramente, mas, apesar da dor que se fazia sentir em nós, o carinho e a amizade ficaram presente. Mas não foi fácil até chegarmos a este ponto. Tivémos uma grande capacidade para nos aceitarmos dessa forma.

Sentia-me muito sozinha e com uma vida vazia sem ti. Naquela noite, abri uma garrafa de vinho, enchi meio copo e deitei-me no sofá. Estava carente de carinho, carente de amor, carente de sexo. Naquele momento, recebo — não sei por que razão — uma mensagem tua. Perguntavas: «Como estas? Tenho imensas saudades tuas. São muitos meses sem ti. Não quero mais dias vazios. Bem que tu me dizias que nenhum ser humano consegue viver sem amor.» Eu não estava a conseguir acreditar no que estava a ler. Tremi, sorri e as lágrimas surgiram. Estava a morrer de saudades tuas.

E, sem pensar no que seria o mais correto, segui o meu coração. Segui o amor que ainda sentia por ti, o desejo que nunca deixei de sentir do teu corpo, a ânsia de ser feliz ao teu lado. Sem questionar fosse o que fosse, envio-te uma mensagem com uma fotografia que registava aquele momento. A fotografia com a garrafa de vinho, o meu copo meio cheio e um outro copo vazio, dizendo: «Vem até aqui. É aqui o teu lugar, como sempre te pedi para ficares.»

A campainha de casa tocou! Abri a porta e eras tu. Pela rapidez entre o momento em que recebeste a minha mensagem e o toque na campainha, jurava que já ali estarias, a ver-me de longe, tal como eu tinha feito durante este tempo todo. Sem dizer nada, dou-te o copo para a mão. Sorrio de forma tímida. O meu corpo, por dentro, tremia de desejo por ti.

Brindámos. Perguntei: «Brindamos a quê?» E tu respondeste: «À nossa vida!» Não percebi, mas sorri e dei-te um abraço, aquele abraço que sempre nos caracterizou, apertado e sem pronunciar qualquer palavra e sempre com um suspiro de alma tranquila. Pensei que, mais uma vez, iria viver de sonhos e não de realidade, mas não podia esconder o quanto estava feliz naquele momento.

Pousaste o copo e foste ao carro, tiraste uma mala, colocaste junto à porta de casa e, pegando no copo, disseste: «Brindo a uma vida ao teu lado. Deixei tudo e não me vou questionar. Quero ser feliz e não te posso deixar ir embora da minha vida mais uma vez.» Abracei-te com força, com as lágrimas a caírem pelo meu rosto de tanta felicidade.

E foi naquele dia que ficaste para sempre. Porque só poderia ser assim. Porque o amor era imenso. Porque a vida é só uma e passa por entre os intervalos dos dias, sem nos apercebermos. Porque merecemos ser felizes e as oportunidades são raras. Porque ali, naquele momento, sabíamos que tínhamos tomado uma decisão difícil, mas era uma decisão acertada. Nada fazia duvidar do quanto iríamos ser felizes.

Confiaste em nós, finalmente! Passámos do sonho à realidade.

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MATILDE GOMES, a emotiva
É sonhadora — tanto que, desde há muito, tem uma lista de sonhos a realizar — e é a viajar que quer iniciar a sua aventura pela vida. Apaixonada pela leitura, é na escrita onde se sente livre, tendo sempre presente o amor e a dor. O seu interior é um turbilhão de emoções, onde reside as lágrimas e os sorrisos. Para a Matilde, o abraço é o gesto que melhor revela os sentimentos.