E tu? Também já precisaste deste cobertor?

3447
Fotografia © Micah Hallahan | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Micah Hallahan | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Sentei-me do lado de dentro da sacada da minha sala. Lá fora, estava frio, a chuva teimava em compor uma melodia que me embalava e transportava para um mundo completamente diferente deste mundo, do meu e do teu mundo também.

Sentia frio. Levantei-me e fui buscar um casaco, daqueles de pelo, daqueles que são tão quentes que até te aquecem a alma, ou não.

Ao vestir o casaco, abri a sacada, acendi um cigarro e a chama do cigarro iluminou a varanda escura e fria. Mesmo com aquele casaco tão quente, continuava fria, desconfortável. Não sei, com uma sensação esquisita. Alguma vez te sentiste assim? Um vazio sem razão aparente, uma falta de conteúdo interior que te leva a questionar tudo e todos. Se nunca te sentiste assim, então algo não está bem.

Sentei-me no chão, apoiei os pés nas grades da varanda e desfrutei daquele momento só meu. Sabes que me soube tão bem? Há quanto tempo não tinha eu um momento tão e só meu? Por mais estranho que te pareça, há meses que não sei o que é estar sozinha comigo mesma. Aposto que sabes tão bem o que é isto.

Acabei de fumar aquele cigarro, companheiro daquela solidão infinita, mas que falou comigo a mesma linguagem, compreendeu perfeitamente o que sentia. E fiquei ali, a contemplar as estrelas que me acenavam com a cabeça, dizendo-me que estavam ali e que me iluminavam o caminho. Mas qual caminho? Nem me apetecia já levantar dali, nem enfrentar mais um dia daqueles intermináveis, em que temos de sorrir para todos, onde temos de ter aquele jogo de cintura para contornar todas aquelas situações.

Este caminho, hoje, teimava em ser escuro, frio e sem alento nenhum. Mas continuava a sentir este frio que me gelava por dentro. Até o meu cérebro parecia estar congelado.

Como não sou de ficar com questões na cabeça por resolver, e tenho a mania de sentir em exagero, tentei perceber o que se passava comigo, embrulhada naquele casaco e numa manta que me tapava no meu sofá nas noites mais frias.

Fiquei ali, comigo naquela varanda cheia de grades, e, de repente, levantei-me e fui fazer um chá bem quente.

«Aposto que é isso que me falta. Um chá quente para me aquecer a alma. Para frio já basta o dia e eu.» Sentia raiva de mim mesma por este sentir.

Com certeza ficaria quente, por dentro, e conseguiria perceber que sensação estranha era aquela num dia de chuva miudinha, onde a melodia me embalava, onde tinha uma vista privilegiada sobre uma barragem brutal, uma água azul, onde os pingos da chuva beijavam intensamente a água. Aquele encontro era de uma perfeição sobrenatural! Que cenário mágico! Comecei a sentir-me mais confortada de repente, sabes.

De caneca de chá na mão, sentada num baloiço mágico, já de alma mais quente e alegre, comecei a entender que o gelo que sentia estava cá dentro, dentro do meu ser, dentro da minha cabeça, que só se preocupava com o que havia de vir; com tudo o que eu tinha de resolver; com aquele problema que teimava em não me deixar sequer dormir; com o ser a mãe, a mulher, a profissional, a amiga, a filha, mas não uma mãe, uma filha ou uma profissional qualquer, percebes? A perfeita, com a qual nada pode correr errado, que faz tudo conforme o planeado.

Que mania que temos de tentar alcançar a perfeição, o linear, o normal, o que é visto como o socialmente correto, não é?

Sabes, aquela vista privilegiada de que te falei há pouco, onde contemplava a história de amor entre os pingos da chuva e aquela imensidão de azul? Onde os beijos intensos faziam prever um momento escaldante de amor, de desejo, de satisfação carnal? Sabes, comecei também a ver que o vento batia nas árvores e ambos dançavam, mas dançavam de uma forma como se mais nada existisse nesta vida, e não. Para eles, não existia mais nada. Então, comecei a ver além daquele cenário, além de todas as grades da minha vida. Aquelas grades da varanda simbolizavam as grades da nossa vida, o frio que sentimos cá dentro, bem no fundo de nós, na alma corroída por tudo o que nos preocupa, por aquele prazo que tem de ser cumprido, pela expetativa que os outros colocam em nós, e esquecemo-nos, tantas e tantas vezes, da riqueza que as coisas de uma simplicidade natural e brutal nos oferecem e de como nos aquecem por dentro.

Ergui-me, bebi o resto do meu chá de caramelo, inspirei aquele ar que me desentupiu o ar turvo que tinha cá dentro, olhei a dança do amor entre o vento e as arvores, apreciei o amor entre as gotas da chuva e aquele azul magnifico e, sabes, esqueci-me do resto das preocupações. Tudo se há de resolver. Há que apreciar os momentos mais simples da vida.

Digo baixinho ao teu ouvido: aprecia a simplicidade das coisas, um sorriso na hora certa, um abraço inesperado, um «gosto de ti» sincero, um obrigada, o sol que bate na tua janela de manhã e faz com que o teu quarto pareça aquele palco onde vais brilhar!

Deixa-te enfeitiçar pelo simples, pelo puro, porque o que é não precisa de parecer.

E, sabes, percebi que o frio que sentia não iria colmatar com nenhum casaco, nem com o cobertor mais quente deste universo. O frio estava cá dentro, na alma!

E tu? Também já precisaste deste cobertor?

Comments

comments

PARTILHAR
Artigo anteriorPelo menos, vivi
Próximo artigoÀs mulheres difíceis de amar
DORA NUNES, a Cinderella
Tem 37 anos e vive em Ponte do Sor — uma «cidade alentejana», diz, «de gente de alma gigante». Trabalha como administrativa num lar de idosos e canta numa banda. Duas terapias que a fazem sentir-se feliz. A escrita surgiu na adolescência. Era uma miúda tímida, com os medos e os anseios tão típicos da «idade do armário». Na escrita, libertava-os, soltava-se. Um desejo? Que cada palavra sua toque o mundo de quem a lê. Sente que a sua missão é ajudar os outros e acredita no lado bom de todos nós. Quem é ela? É a nossa Cinderella!