Amor em tempo de guerra

878
Fotografia © Amanda Jordan | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Amanda Jordan | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Foram três anos! Três longos anos de dolorosa separação! Três longos anos de penosa espera.

Naquela tarde de agosto, a confirmação. Instalou-se o sabor amargo da realidade cruel de se estar mobilizado. Aconteceu o adeus. Houve promessas, sorrisos de esperança! Seriam dois anos, um mês de férias pelo meio, se tudo corresse pelo melhor. A contagem decrescente começou. As notícias íam chegando, a dor da saudade aumentava, a insegurança instalava-se e o medo era um pesadelo constante!

Escassos meses tinham decorrido, veio a notícia que ninguém desejava. O melhor companheiro, o amigo do peito, o trágico acidente… a morte! Éramos tão jovens! Nos nossos corações ficariam gravadas para sempre as palavras por ele, tantas vezes, repetidas: «Somos comandos. Dizem que somos loucos, que não temos medo de morrer! Nós amamos a vida acima de tudo! Mas, afinal, que importa morrer? No cemitério também há flores!»

Cedo demais desabava sobre nós tamanho pesadelo. Contudo, viver era o nosso desafio! Os sonhos eram a nossa força. Endurecemos a nossa luta. Fortalecemos a nossa determinação. Teríamos de alcançar a nossa vitória!

Sucediam-se os meses, salpicados de alegrias quando chegavam as cartas, os aerogramas, os escassos telefonemas. Vividos com ansiedade e medo se a ausência de notícias se prolongava, se estas vinham do mato. Para lá, iam cartas todos os dias.

O tempo passava demasiado lentamente e não houve férias no fim do primeiro ano. A irreverência, a revolta, o não aceitar uma situação tão cruel levavam a actos que tinham como consequência as porradas, o adiar de regalias.

Assim se passaram dois anos. Continuávamos a viver reféns das nossas promessas, acreditando que o sol voltaria a brilhar nas nossas vidas! Até quando? A dor tornara-se insuportável.

Decidimos transpôr barreiras. Decidimos viver!

Chegou a carta do grande amigo Capelão Militar, o Manel: «Sim, vem. Tudo irá correr pelo melhor. Vem preparada, porque vais encontrar um homem completamente destroçado, psicológica e moralmente.»

Era o desafio. Foi abraçado com entusiasmo, determinação e um grande amor! Tinham decorrido três anos. Havia feridas que precisavam ser saradas.

«Senhor Padre, eu não quero que fale muito», disse o alferes.

«Homem, eu nem falo nada», respondeu o Padre Missionário.

Assim, com poucas palavras, mas muito verdadeiras e sentidas, se realizou uma cerimónia única pela sua simplicidade, rica pela grandeza do amor que se celebrava! Duas vidas se iluminaram de felicidade. Foi sentir novamente o doce sabor da vida. Voltaram os sorrisos, a alegria. Sentiu-se a paz. Viveu-se o amor!

Finalmente, aconteceu a visita do Manel. Terminara a sua missão no mato.

Como foi bom! Naquela noite, como nos divertimos! Houve aquele abraço tão sentido, aquelas palavras, em segredo…

«Dou-te os parabéns! Este já não é o mesmo homem que eu conheci!»

Comments

comments

PARTILHAR
Artigo anteriorNão quero um amor pela metade
Próximo artigoPelo menos, vivi
MARIA REIS, a avó-sorrisos
Ela não é uma mulher rica. É, sim, uma rica mulher! É dona de um coração generoso, que já ultrapassou sofrimentos, mas também sabe muito sobre o amor. É sonhadora: os sonhos estão sempre lá e o seu percurso de vida foi-se construindo com a realização de muitos deles. Desafios? Sim, aceita-os com determinação e entusiasmo. E, como alguém disse, «às vezes, é uma caixinha de surpresas».