Olho morto I

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Ilustração/Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Ilustração/Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Poderia dizer que estão a olhar-me com os seus olhares penosos e penetrantes, repletos de culpa e receio, mas não. Olham a minha fotografia no seio de tanta gente que sente a minha falta. Agora é tarde de mais. Não podem desfazer o que fizeram, nem sequer pedir desculpa. Eu já não estou entre eles. Não passo apenas de uma insignificante energia, um vulto ou uma aparição.

Os únicos que acarretam a culpa mal olham a minha fotografia, diante do caixão de madeira escura. Esses quatro intrusos que guardam a culpa da minha morte estão presentes, sentados no banco da igreja, mesmo em frente ao meu inanimado corpo – ou cadáver.

— Sinto a sua falta. — sussurrou Mónica, uma das quatro cabeças destinadas a um final infeliz, porém honesta. Senti a sua saudade e o sentimento de culpa que encerrava entre o seu peito. Vi nos seus olhos a tentação de contar toda a verdade, e, no entanto, fecha os olhos enquanto uma lágrima derramada escorre pela sua pálida face.

— Todos sentimos, mas o melhor é o silêncio. Ele teve o que mereceu. E este será o nosso segredo. — respondeu Filipe num murmúrio atroz, nada arrependido. Os seus olhos verdes estavam arregalados e nervosos, amedrontado com o que o futuro lhe poderia esperar, enquanto as suas mãos tremiam, com os nervos.

Tais palavras magoam-me. Éramos cinco amigos. Um grupo unido, e agora tudo se desmoronou.

O Valter e a Marta também estão ao lado da Mónica e do Filipe, fartos da culpa que os assombra. A culpa de que me mataram. Os quatro. Através de um jogo inútil que me fez perder o pé no alto mar. Nenhum me salvou. Apenas se limitaram a olhar. Agora é o tempo da minha vingança. As suas mortes.

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CÉSAR DA SILVA, o independente
Gosta de gelados - muitos gelados! Diverte-se com pouco e cansa-se da rotina facilmente. Gosta de rir e, acima de tudo, de escrever. Sente aquilo que escreve e imagina tudo num mundo totalmente diferente, criado na sua própria mente. Tem 22 anos e sempre conquistou a sua independência. Adora boas séries e bons filmes. É viciado em entretenimento. Escreve aquilo que sente e gosta de dar asas à sua criatividade.