Ao meu segundo amor

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Fotografia © Clem Onojeghuo | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Clem Onojeghuo | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Eu não fui o teu primeiro amor. Nem tu foste o meu. E ambos sabemos disso. Ela encontrou-te numa altura em que tu nem sabias que eu existia. E ele teve o meu coração antes dos meus olhos sequer terem olhado na tua direção. Eu nunca a conheci e tu nunca o conheceste. E ambos sabemos disso.

Nós raramente falamos acerca deles. Às vezes, por entre uma conversa qualquer tardia entre nós, eu confesso-te entre suspiros o quanto ele me magoou outrora. Tu, por outro lado, sorris e falas-me do quanto cresceste por causa dela. E não passa muito daí. Nem nenhum de nós insiste em saber mais, e isso talvez seja uma razão para sorrirmos os dois. Como se já nada nos chamasse de volta. Como se todas as portas e caminhos, que nos pudessem levar ao passado, estivessem bem trancados e selados. Como se tudo o que existe lá atrás não fosse mais o suficiente para nos impedir de seguir em frente. Apercebo-me cada vez mais de como tudo isso é bem verdade.

Eles foram os primeiros e ambos sabemos disso. E ambos aceitamo-lo sem intrigas nem invejas. Aliás, eu só quero agradecer-lhe por te ter deixado suavemente, respeitando-te até ao fim. Enquanto tu só queres esbofeteá-lo por me ter deixado feita em pedaços. Eu quero que ela me conte como é que tu eras nesses tempos de ingenuidade. Tu só queres virar-te para ele e dizer-lhe que serás o homem para mim que ele nunca fez por ser.

Tu não foste o meu primeiro e não te importas, porque tu bem sabes que as lições mais dolorosas, que eu tanto tinha de aprender, já as aprendi com ele. E eu não fui a tua primeira, sei bem disso e não me interessa. Pois foi ao lado dela que tu aprendeste a amar e, por isso, sais-te tão bem ao fazê-lo comigo.

Nós não fomos os primeiros um do outro. Não fui eu a primeira a segurar o teu coração nas mãos, nem fui a primeira a despedaçá-lo por tê-lo segurado com demasiada força. Nem foste tu o primeiro a quebrar-me as promessas de mindinho, nem a garantir-me um futuro que nunca haveria de chegar.

Eu não fui a tua primeira, mas sabes o que fui? Fui quem procurou todos os teus estilhaços pela calçada e que os juntou num coração inteiro, pronto para amar de novo. Tu não foste o meu primeiro, mas sabes o que tu foste? Foste aquele que me fez voltar a acreditar em todas aquelas coisas que eu passei a julgar impossíveis.

O que eu estou a tentar dizer é que ambos os amores são tão diferentes um do outro. Ele foi o meu shot de tequila numa noite de verão; foi a aventura desenfreada e intensa, completamente fora de controlo. Ela foi a tempestade que surgiu do nada nesse teu deserto, que não estava de todo preparado para tamanha monção. Mas tu és o meu copo de vinho, que me aquece nas noites frias. E eu sou a cama que te espera em casa, depois de um longo dia.

O primeiro amor nada tem a ver com o segundo: nunca poderia. Porque foi ele quem me fez perder o chão, enquanto que tu me deste um teto. Ele deu-me asas para voar, mas és tu quem faz por me amparar as quedas e beijar-me as feridas. Ele prometia-me o mundo e a lua, mas és tu quem faz por estar presente no brilho dos meus dias e no luar das minhas noites. Ele foi a intolerância que não aceitava as minhas falhas, ao passo que tu és a paciência que lida com as inseguranças que esse me deixou. Ele foi quem eu amei, acima de mim mesma. Tu és quem eu amo, enquanto me amo também a mim.

Tu não foste o meu primeiro, e depois? Isso jamais faria de ti menos do que ele. Afinal, foste tu quem me mostrou que o amor é esta energia renovável, que não se esgota à primeira. Foste tu quem concedeu uma nova oportunidade ao meu coração, que sempre acreditou ter mais para amar. Foste tu quem me mostrou porque é que o primeiro amor seria o esboço que me viria preparar para a verdadeira história.

Eles foram os primeiros. E então? Não há razão para tristezas. Ambos prometemos um ao outro que iríamos fazer melhor desta vez, e eu finalmente acredito que somos capazes disso mesmo.


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DANIELA ROSA, a que nunca se cala
Escreve desde que se lembra. Quiçá, por sempre ter sentido que um só mundo não lhe bastava. Portanto, é isso que ela faz, é isso que ela é: ela escreve. De si e para vocês, que a leem. Talvez, um dia, ela seja mais. Até lá, palavra a palavra, há de alcançar o seu sonho: o de, finalmente, se encontrar… Quem sabe? Pelo caminho, pode ser que a encontres: a sonhar, a escrever e a acreditar.