Antes e depois de ti

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Ilustração/Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Ilustração/Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Sabes, há uma linha invisível, aos olhos do mundo, que separa as duas etapas do meu caminho por esta vida. Uma data assinalada num calendário que é só meu. O ponto de partida para algo de novo. Uma porta que se fechou para que se pudesse abrir uma nova janela. A janela de onde se via apenas o futuro. Essa linha define a minha vida antes e depois de ti.

No dia em que te conheci, percebi que a miúda tímida que vivia em mim teria de mudar. Olhei para o passado e vi que nada se tinha passado. Os dias tinham sido preenchidos por uma existência vazia. Vi sonhos desorganizados, que eram só isso — sonhos sem pés para chegarem ao futuro. Vi a sombra de uma alma rendida ao mundo, que tanto lhe exigia, sem nada lhe dar em troca. Vi sentimentos sem a marca do amor e também amores que nada mais eram do que sofrimentos.

E sabes onde vi tudo isto?

Foi no fundo da tua alma. Olhei-te e vi-me refletida no teu olhar. Estavam ali, nos teus olhos, dores que eram minhas. Nas tuas mãos, estava um mapa sem rota, de quem também fez a sua viagem pela vida, de olhos fechados. Senti o bater do teu coração oprimido, por falta de amor. A tua alma não tinha cor, alimentava-me da amargura de uma vida sem sentido. Foi isso que eu vi em ti. Estava ali, à minha frente, alguém que tinha sentimentos iguais aos meus. Alguém com revoltas que eram irmãs das minhas.

E, desde esse dia, passei a ser tua, mesmo sem o ser. Amei-te, sem nunca te ter desejado. Uma amizade com a cumplicidade de um amor, que me ficou entranhado na alma. Uma forma diferente de amar. Eu amo-te, sem te tocar, sem desejar a tua pele, sem implorar pelo teu amor carnal.

Eu amo tudo o que a tua existência acrescentou ao que eu era, e ao que descobri que poderia ser. É dessa forma que eu te amo. Sem compromissos, sem juramentos, sem expetativas. Um amor simples e verdadeiro.

Tu contaste-me a tua história e passaste a ser parte da minha.

Tu secaste as minhas lágrimas e despertaste as minhas emoções. Tu inventaste palavras para me definirem e essas palavras ficaram a fazer parte do meu dicionário. Beijaste o meu sorriso, como quem sorri para o paraíso. Abraçaste-me no meio de uma rua, como se fossemos dois amantes. Tiraste palavras da minha boca para completares a poesia da tua vida. Acrescentaste tentação nas frases em que escrevo sobre o meu futuro.

E o depois de ti apagou a miúda sem história, essa ficou no passado. Depois de ti, apareceu a mulher atrevida, sem medo do amanhã. A mulher que aprendeu a sentir arrepios de calor provocados pelo amor. A mulher que ousou dizer-te um «gosto-te», sem ter medo de ser censurada. A mulher que não receia ser seduzida por ti, porque aprendeu a lidar com a sedução.

Sabes, ainda bem que existe um antes e um depois de ti.

Porque hoje sei quem sou, mas já não reconheço quem fui. Dei-te tudo o que tinha, para tu transformares em algo que hoje me apetece. E, hoje, apetece dizer-te obrigada, porque, um dia, cruzaste o meu caminho. Obrigada, porque reparaste em mim. Estou-te grata pela limpeza que fizeste à minha alma. Pela arte com que soubeste esculpir os meus sonhos, fazendo deles a janela perfeita para o meu futuro.

Que seria de mim se não tivesse existido um antes e um depois de ti?

Ter-me-ia perdido no labirinto da vida, sem que alguém me encontrasse. Não saberia o sabor de amar, nem o desejo de me sentir amada. Faltar-me-iam as palavras para expressar a emoção de me sentir viva. Não conheceria a razão e julgaria que a vida era só sofrimento. Julgar-me-ia sozinha, estando no meio de uma multidão. Não teria esta felicidade que carrego no meu coração por me teres descoberto.

Obrigado por teres chegado no antes e por me acompanhares no depois. É essa força que chegou de ti que me ajudou a chegar aqui.

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ANGELA CABOZ, a miúda gira
Nasceu em Tavira há 49 anos. Desde a adolescência que é uma apaixonada pela leitura, pela escrita, pelo cinema e pela música. Escreve sobre sentimentos e, nas palavras, reflete a maneira de ver e de sentir o mundo. Em 2014, realizou um sonho: a publicação do seu livro «À procura de um sonho». Desde então, tem participado em várias obras coletivas.