O outro tempero da vida

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Fotografia © Todd Downs | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Todd Downs | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Tentei apanhar aquele avião, mas simplesmente não consegui. E até hoje não me perdoei. Fiquei neste mundo detentor de vontades, nesta sociedade de aparências, nesta inversão de tudo e de todos, em que ser importante é muito mais fundamental do que ser útil.

Fiquei sentada naquela rocha, que a erosão já desgastou por completo. Ouve-se somente o barulho das ondas do mar, este mar que fala comigo, que me tenta mostrar o quão importante posso ser e tamanha diferença posso fazer na vida das pessoas, mas principalmente na minha própria vida.

Quando prendi o cabelo, senti-o encrespado com o sal do mar, e, de repente, percebi que era disso que a minha vida precisava, de uma pitada de sal. Precisava temperar a minha vida, de dar um tempero a mim mesma. Sentia-me insonsa e não gostava da sensação. A sensação que estava entre o sim e o não, o nim, como costumamos dizer, não era para mim, mas foi durante tanto tempo…

Era um limbo que me transportava para uma dimensão de pouco sentir, de pouca intensidade e, sabes, precisava de mais, de muito mais. Aquela sensação de não saber se não era de todo o meu ideal para sentir. E agora? Tinha-te deixado ir. Não apanhei o avião, nem fui atrás de ti. Tu que me deste tudo do que precisava, o sal, a pimenta e até a baunilha-chocolate, que temperou os meus domingos à tarde, à lareira, a ver um bom filme.

Sabes porque não fui naquele avião? Porque era aqui que tinha de fazer algo diferente, que tinha de me temperar e de te temperar também! Tinha de te dar a conhecer os aromas mais intensos destas emoções gastronómicas!

Há que querer por inteiro, sentir por inteiro, viver por inteiro!

Não vivamos de dúvidas, de ses, do não saber se errámos ou se fizemos o certo. Estás na dúvida? Vai na dúvida mesmo! Se há dúvida, é porque a tua certeza não é absoluta!

Não penses que a solução é apanhar o avião e sair do teu local habitual. O avião da mudança és tu mesmo. O outro tempero da vida és tu que tens e és tu que lhe dás!

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DORA NUNES, a Cinderella
Tem 37 anos e vive em Ponte do Sor — uma «cidade alentejana», diz, «de gente de alma gigante». Trabalha como administrativa num lar de idosos e canta numa banda. Duas terapias que a fazem sentir-se feliz. A escrita surgiu na adolescência. Era uma miúda tímida, com os medos e os anseios tão típicos da «idade do armário». Na escrita, libertava-os, soltava-se. Um desejo? Que cada palavra sua toque o mundo de quem a lê. Sente que a sua missão é ajudar os outros e acredita no lado bom de todos nós. Quem é ela? É a nossa Cinderella!